
Micróbios, hippies e artesãos contestam o modo de vida da sociedade atual, mas não sabem quem realmente são
por Joyce Gomes*
Fotos: Joyce Gomes
Fotos: Joyce Gomes
Está em crise a identidade daqueles que buscam viver o presente viajando de cidade em cidade apenas com a roupa do corpo e os trabalhos feitos manualmente. Os cabelos grandes e desalinhados, as roupas largas, a fala pausada e as pulseiras, colares e brincos espalhados pelo chão fazem a maioria das pessoas os conhecerem como hippies. Mas nem eles sabem quem são de fato.
Grande parte dos artistas de rua, como gostam de ser chamados, não usa o nome verdadeiro. Flávio, Eterno, Ruan, Folha, Júlia, Robson e Thales é a forma como alguns dos que estão em Brasília são conhecidos.
Os que se consideram hippies procuram expor as peças perto de locais culturais ou onde encontram pessoas para trocar conhecimentos, como em universidades. Em frente ao Instituto de Integração Social e Promoção da Cidadania (Integra), o som da gaita do hippie Eterno chama a atenção daqueles que passam apressados pela W3 Sul. Quem pára para apreciar o trabalho exposto no chão e em painéis é presenteado com uma poesia. "Sou um dos poucos hippies que ainda existem. Fico onde tem gente para trocar uma idéia. Em cada cidade que viajo, busco o intercâmbio cultural", diz Eterno, de 44 anos, 29 de estrada.

O amigo Folha, que Eterno conheceu há duas semanas, discorda. "Você não é hippie. Hoje não existe ninguém da geração hippie, nem da geração de antes da década de 60", contesta. "Eu me considero um artesão. Estou fora desse papo de sexo livre", afirma. Folha se refere à atitude comum entre hippies da década de 60 de praticar o sexo livre.
O antropólogo Antônio Flávio Testa explica que o sexo sem preocupações e o casamento aberto viraram moda na década de 60 quando o uso do anticoncepcional foi universalizado. A filosofia hippie, porém, não se resumia ao sexo livre. "Os hippies são substratos da contracultura do final dos anos 60. Eles contestaram a ordem estabelecida e descartaram o consumo", diz Testa.
Outro segmento do movimento, chamado micróbios, herdou dos hippies da década de 60 a idéia de desapego à matéria. "Estou longe desse negócio de dinheiro. Hoje as pessoas se preocupam mais com o ter do que com o ser", diz Robson, de 22 anos. "Essa história de ser hippie tem altas contradições. Hippie foi um movimento. Só sei que somos micróbios, nos adaptamos em qualquer circunstância", conclui.
Os micróbios
Os micróbios
são intitulados assim pela facilidade que têm de resistir a lugares diferentes. Qualquer cidade é boa para eles. "Todos os lugares que passamos são da hora, porque conhecemos pessoas diferentes e cada um tem alguma coisa para ensinar", diz o micróbio Flávio. "A gente deixa o nada para ter tudo. Só quem vive assim consegue saber o que é", afirma Thales, de 35 anos.Segundo o psicólogo Aderson Luiz Costa Júnior, para alguém deixar a vida, a família, a casa, tem de ter certeza das conseqüências da decisão. "Quando uma pessoa deixa tudo o que tem para viver em outra estrutura, tem de ser uma decisão segura e tomada conscientemente", afirma. "Fazer isso por protesto ou opção de vida sem planejar é um risco alto, pois causa o aumento da população mendiga", alerta. Em contrapartida, o antropólogo Testa acredita que os hippies de hoje levam a vida nas ruas por não se adaptarem à sociedade. "Eles resolvem sair da sociedade atual por não se ajustarem. Mas isso é só uma fase. Do ponto de vista sociológico, o homem estabelece raízes em algum momento da vida", explica.

O motivo que fez essas pessoas mudarem o estilo de vida pode ser variado. "Alguns integrantes do movimento foram para a rua de coração. Outros, por falta de opção", afirma Flávio. O hippie Eterno e o artesão Folha têm histórias comuns. As mães não aceitavam que eles usassem drogas. O primeiro foi submetido a um tratamento psicológico. O segundo a uma clínica para dependentes. Já os micróbios Robson, Thales e Flávio eram apaixonados pelo artesanato e repudiavam a ganância. Resolveram, portanto, levar as peças fabricadas por eles às diversas cidades do Brasil, conhecendo pessoas e vivendo apenas com o que tinham, sem querer mais.
Nenhum deles tem consciência do que realmente é. Podem ser micróbios, hippies, artesãos ou apenas pessoas que buscam viver de uma forma diferente, seja para contestar a sociedade atual, ou para curtir cada momento. O pensamento de todos, entretanto, coincide em um ponto. "A rua é uma faculdade da vida. Aqui a gente aprende coisas que não tem em nenhuma escola. É aqui que quebramos o preconceito e aprendemos o que é família", garante o micróbio Robson.
* Matéria feita em abril de 2008

Um comentário:
A caçadora de hippies !!!! Nenhum escapa dessa mulher !!! W3, UnB, Barra do Garça, Guarujá, Asa Sul, Asa Norte, Torre de TV, Gama, Planaltina, Santo Antônio do Descoberto, Vale do Amanhecer ...
Onde for, e onde tiver um hippie, lá está a Jójó !!!!
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