segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornal de Brasília

Desinformação que mata
Pesquisa mostra que 85% das mulheres desconhecem fatores de risco
Joyce Gomes*
joyce.gomes @clicabrasilia.com.
br

Para algumas mulheres o medo tem motivos estéticos. Vem da angústia de perder uma parte do corpo, de ser mutilada. Só de imaginar é difícil, e muitas preferem adiar o exame e fingir que está tudo bem. Para outras, a dor é maior, de perder os sonhos, de achar que tudo o que fez até aquele instante contribuiu para levá-la a um único destino: a morte. Se ao menos tivessem tido coragem, tomado a iniciativa ou dedicado uma pequena parte do tempo haveria chances de manter o corpo da mesma forma e saudável.

Esses são alguns dos sentimentos de muitas das mulheres diagnosticadas com câncer de mama. Para evitar surpresas desagradáveis e diagnósticos tardios, há exames que podem detectar a doença logo noinício, o que aumenta as chances de tratamento precoce e de cura.


A mamografia é um deles e a ultrassonografia é outro. Porém, muitas mulheres ainda são desinformadas sobre o assunto e outras têm informações distorcidas. Por isso, o câncer de mama que poderia ser curado em 15 dias, aumenta as estatísticas de morte para 12 mil, em quase 50 mil diagnósticos anuais, só no Brasil.

Esses dados fazem parte da pesquisa Câncer de Mama – experiências e percepções , realizada pela Pfizer, que tem o câncer como um dos principais focos de pesquisa. Foram estudadas 320 mulheres de cinco capitais brasileiras, sendo 200 com câncer de mama e 120 sem a doença.

O resultado chocou o oncologista Sérgio Simon, do Hospital Albert Einstein de São Paulo, que coordenou o projeto. De acordo com a pesquisa, 85% das entrevistadas acreditavam estar bem informadas em relação à doença. Poucas, no entanto, acertaram os fatores que aumentam o risco do câncer de mama. "É assustador. O que elas consideram como fator de risco está tudo errado. Tudo do avesso", lamenta o médico.

A informação que falta, muitas vezes, é o que faz o tumor aumentar a cada dia e as chances de cura serem reduzidas. Quanto mais cedo o problema é diagnosticado, mais fácil e rápido é o tratamento. Mágoas, depressões, estresse nada tem a ver com a doença. O cigarro também não faz parte do conjunto de fatores que desencadeiam o câncer de mama, porém, foram as causas mais citadas. O que realmente é considerado relevante como fator de risco é a variação de hormônio, principalmente de estrógeno.


"Por isso, menstruação precoce, menopausa tardia, pouca amamentação e reposição hormonal influenciam no desenvolvimento do câncer de mama. Quanto menos a mulher menstrua, menores são os riscos", alerta Simon. A obesidade é outro fator desencadeante da doença. "O estrógeno é à base de gordura, por isso, quanto mais gorda a mulher é, mais hormônio tem", esclarece o médico.

Propensão genética
Além dos casos de variação hormonal há, também, mulheres com tendência a desenvolver o câncer de mama. O oncologista Sérgio Simon explica que é o caso das mutações genéticas. Apesar do percentual desses casos ser de apenas 5% das mulheres com câncer de mama, o cuidado tem de ser redobrado. Nesses casos, o histórico familiar é o que aponta o quão cedo a mulher tem de se preocupar com a doença.

Os exames preventivos de diagnóstico, geralmente recomendados a partir dos 40 anos, passam a ser solicitados já aos 25. "Podem ocorrer mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, causando o câncer de mama ou de ovário. Mas é um caso muito raro", garante o especialista.

Mesmo que a hereditariedade não esteja a favor, a mulher não está condenada a ter a doença. O câncer de mama, quando prevenido, tem até 80% de chances de cura. "O problema é que a pessoa tem o pedido, mas não faz o exame. E é a mamografia que pode salvar", defende Simon.

Foi pedida a mamografia a 78% das mulheres sadias que participaram da pesquisa. Apenas 29% fizeram. Em relação à ultrassonografia do seio, somente um terço das mulheres atenderam ao pedido.

No entanto, 81% das mulheres pesquisadas, realizaram o autoexame. "Isso é algo importante, mas não é nada comparado com a mamografia e a ultrassonografia. Por isso, não basta educar para fazer os exames corretos, tem de lembrar as mulheres, frequentemente, de fazer os exames", reforça o oncologista.

Lei garante o exame
A mamografia tem tamanha relevância que, no ano passado, foi sancionada uma lei federal que garante a realização do exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS) às mulheres a partir de 40 anos. A Lei 11.664 entrou em vigor no dia 29 de abril, e agora, a mulher pode exigir esse direito de médicos e hospitais.

Porém, enfrentará outro problema caso o câncer seja diagnosticado. Terá de marcar nova consulta para ser encaminhada ao tratamento. E, no serviço público, é grande a demora para nova consulta. O tempo não ajuda quem tem um tumor que cresce a cada dia. "Além dos atrasos frequentes nas consultas, a paciente ainda leva desvantagem no tipo de tratamento. A quimioterapia do hospital público é mais barata e menos eficaz. A chance de sobrevida é bem menor, mesmo se o câncer estiver no mesmo estágio", lamenta Simon.


Além disso, um tratamento à base de anticorpos, mais eficaz, custa entre R$ 12 mil e R$ 14 mil por mulher. Para o médico, a lei libera a mamografia, mas não resolve o problema do câncer de mama para quem tem baixa renda. "O processo tem de ser todo resolvido desde a mamografia até o fim do tratamento", assegura o oncologista.

Ainda há preconceito
O problema enfrentado pelas mulheres não se limita a exames e consultas, medos e angústias ao se ver doente e ter de correr contra o tempo para se tratar. Elas têm de lutar, ainda, contra o preconceito. No estudo realizado pela Pfizer, apenas 24% das mulheres pesquisadas afirmaram que o tratamento afetou a vida profissional. A maioria teve o apoio de chefes e colegas de trabalho. Porém, o quadro muda quando o assunto é inserção no mercado de trabalho.

"Depois de um ano de tratamento não sentia mais que tinha câncer. Me sentia curada. Passei em duas empresas, mas na hora do exame médico fui reprovada. A autoestima foi pro pé ao me deparar com o preconceito. Não falam que não aceitam você por ter câncer, nem podem. Mas a gente percebe, pois tenho três formações e um currículo fantástico". O depoimento é de uma mulher que não teve medo da doença.

Ao ter o câncer de mama diagnosticado, Valéria Baracat, 48 anos, só pensava que a vida não podia parar.Ela trabalhou no dia após a cirurgia de retirada da mama, escrevendo e telefonando com a mão que estava com os movimentos livres. Em julho, Valéria completa cinco anos de luta contra a doença. Ela conta que pretendia mudar de trabalho, mas não conseguiu quem a aceitasse. Veio, daí, a ideia de transmitir o que aprendeu para mulheres com histórias parecidas. A arte de viver bem é o site ao qual ela dedica 15 horas do dia para se solidarizar e informar sobre a doença. Para quem ainda acha que o câncer afeta o desempenho no trabalho, Valéria deixa o recado: "O câncer afetou minha mama, não minha cabeça".


Saiba mais:
A maioria das entrevistadas acredita que o estresse é um dos fatores de risco para o câncer de mama, sendo 87% de portadoras e 61% de sadias

Entre as sadias, 43% acreditam que poderiam desenvolver a doença e 47% dizem que a causa do tumor seria emocional

Elas apontaram como causas principais para o desenvolvimento da doença: hereditariedade e predisposição (32%); emoções contidas, mágoas, entre outros (28%) e estresse (24%)

A repórter viajou a convite da Pfizer


* matéria publicada no dia 29/5/2009

Foto: Divulgação/ Campanha contra câncer de mama

2 comentários:

Walter Guimarães disse...

Mas essa matéria é a editada pelos "caras", ou você fez como a Eliane Brum e postou a "vingança contra os editores"?????

Que tal escrever aqui mesmo, nos cometários, ou depois da matéria, as dificuldades, a rotina de produção e comentários que não entraram no texto publicado???? Como a mesma Eliane fez no Olho da Rua.

Parabéns pela matéria !!!! MAs peraí, eu já dei parabéns antes. Retire o que disse ... hehehe

lucas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.