segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornal de Brasília

Desinformação que mata
Pesquisa mostra que 85% das mulheres desconhecem fatores de risco
Joyce Gomes*
joyce.gomes @clicabrasilia.com.
br

Para algumas mulheres o medo tem motivos estéticos. Vem da angústia de perder uma parte do corpo, de ser mutilada. Só de imaginar é difícil, e muitas preferem adiar o exame e fingir que está tudo bem. Para outras, a dor é maior, de perder os sonhos, de achar que tudo o que fez até aquele instante contribuiu para levá-la a um único destino: a morte. Se ao menos tivessem tido coragem, tomado a iniciativa ou dedicado uma pequena parte do tempo haveria chances de manter o corpo da mesma forma e saudável.

Esses são alguns dos sentimentos de muitas das mulheres diagnosticadas com câncer de mama. Para evitar surpresas desagradáveis e diagnósticos tardios, há exames que podem detectar a doença logo noinício, o que aumenta as chances de tratamento precoce e de cura.


A mamografia é um deles e a ultrassonografia é outro. Porém, muitas mulheres ainda são desinformadas sobre o assunto e outras têm informações distorcidas. Por isso, o câncer de mama que poderia ser curado em 15 dias, aumenta as estatísticas de morte para 12 mil, em quase 50 mil diagnósticos anuais, só no Brasil.

Esses dados fazem parte da pesquisa Câncer de Mama – experiências e percepções , realizada pela Pfizer, que tem o câncer como um dos principais focos de pesquisa. Foram estudadas 320 mulheres de cinco capitais brasileiras, sendo 200 com câncer de mama e 120 sem a doença.

O resultado chocou o oncologista Sérgio Simon, do Hospital Albert Einstein de São Paulo, que coordenou o projeto. De acordo com a pesquisa, 85% das entrevistadas acreditavam estar bem informadas em relação à doença. Poucas, no entanto, acertaram os fatores que aumentam o risco do câncer de mama. "É assustador. O que elas consideram como fator de risco está tudo errado. Tudo do avesso", lamenta o médico.

A informação que falta, muitas vezes, é o que faz o tumor aumentar a cada dia e as chances de cura serem reduzidas. Quanto mais cedo o problema é diagnosticado, mais fácil e rápido é o tratamento. Mágoas, depressões, estresse nada tem a ver com a doença. O cigarro também não faz parte do conjunto de fatores que desencadeiam o câncer de mama, porém, foram as causas mais citadas. O que realmente é considerado relevante como fator de risco é a variação de hormônio, principalmente de estrógeno.


"Por isso, menstruação precoce, menopausa tardia, pouca amamentação e reposição hormonal influenciam no desenvolvimento do câncer de mama. Quanto menos a mulher menstrua, menores são os riscos", alerta Simon. A obesidade é outro fator desencadeante da doença. "O estrógeno é à base de gordura, por isso, quanto mais gorda a mulher é, mais hormônio tem", esclarece o médico.

Propensão genética
Além dos casos de variação hormonal há, também, mulheres com tendência a desenvolver o câncer de mama. O oncologista Sérgio Simon explica que é o caso das mutações genéticas. Apesar do percentual desses casos ser de apenas 5% das mulheres com câncer de mama, o cuidado tem de ser redobrado. Nesses casos, o histórico familiar é o que aponta o quão cedo a mulher tem de se preocupar com a doença.

Os exames preventivos de diagnóstico, geralmente recomendados a partir dos 40 anos, passam a ser solicitados já aos 25. "Podem ocorrer mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, causando o câncer de mama ou de ovário. Mas é um caso muito raro", garante o especialista.

Mesmo que a hereditariedade não esteja a favor, a mulher não está condenada a ter a doença. O câncer de mama, quando prevenido, tem até 80% de chances de cura. "O problema é que a pessoa tem o pedido, mas não faz o exame. E é a mamografia que pode salvar", defende Simon.

Foi pedida a mamografia a 78% das mulheres sadias que participaram da pesquisa. Apenas 29% fizeram. Em relação à ultrassonografia do seio, somente um terço das mulheres atenderam ao pedido.

No entanto, 81% das mulheres pesquisadas, realizaram o autoexame. "Isso é algo importante, mas não é nada comparado com a mamografia e a ultrassonografia. Por isso, não basta educar para fazer os exames corretos, tem de lembrar as mulheres, frequentemente, de fazer os exames", reforça o oncologista.

Lei garante o exame
A mamografia tem tamanha relevância que, no ano passado, foi sancionada uma lei federal que garante a realização do exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS) às mulheres a partir de 40 anos. A Lei 11.664 entrou em vigor no dia 29 de abril, e agora, a mulher pode exigir esse direito de médicos e hospitais.

Porém, enfrentará outro problema caso o câncer seja diagnosticado. Terá de marcar nova consulta para ser encaminhada ao tratamento. E, no serviço público, é grande a demora para nova consulta. O tempo não ajuda quem tem um tumor que cresce a cada dia. "Além dos atrasos frequentes nas consultas, a paciente ainda leva desvantagem no tipo de tratamento. A quimioterapia do hospital público é mais barata e menos eficaz. A chance de sobrevida é bem menor, mesmo se o câncer estiver no mesmo estágio", lamenta Simon.


Além disso, um tratamento à base de anticorpos, mais eficaz, custa entre R$ 12 mil e R$ 14 mil por mulher. Para o médico, a lei libera a mamografia, mas não resolve o problema do câncer de mama para quem tem baixa renda. "O processo tem de ser todo resolvido desde a mamografia até o fim do tratamento", assegura o oncologista.

Ainda há preconceito
O problema enfrentado pelas mulheres não se limita a exames e consultas, medos e angústias ao se ver doente e ter de correr contra o tempo para se tratar. Elas têm de lutar, ainda, contra o preconceito. No estudo realizado pela Pfizer, apenas 24% das mulheres pesquisadas afirmaram que o tratamento afetou a vida profissional. A maioria teve o apoio de chefes e colegas de trabalho. Porém, o quadro muda quando o assunto é inserção no mercado de trabalho.

"Depois de um ano de tratamento não sentia mais que tinha câncer. Me sentia curada. Passei em duas empresas, mas na hora do exame médico fui reprovada. A autoestima foi pro pé ao me deparar com o preconceito. Não falam que não aceitam você por ter câncer, nem podem. Mas a gente percebe, pois tenho três formações e um currículo fantástico". O depoimento é de uma mulher que não teve medo da doença.

Ao ter o câncer de mama diagnosticado, Valéria Baracat, 48 anos, só pensava que a vida não podia parar.Ela trabalhou no dia após a cirurgia de retirada da mama, escrevendo e telefonando com a mão que estava com os movimentos livres. Em julho, Valéria completa cinco anos de luta contra a doença. Ela conta que pretendia mudar de trabalho, mas não conseguiu quem a aceitasse. Veio, daí, a ideia de transmitir o que aprendeu para mulheres com histórias parecidas. A arte de viver bem é o site ao qual ela dedica 15 horas do dia para se solidarizar e informar sobre a doença. Para quem ainda acha que o câncer afeta o desempenho no trabalho, Valéria deixa o recado: "O câncer afetou minha mama, não minha cabeça".


Saiba mais:
A maioria das entrevistadas acredita que o estresse é um dos fatores de risco para o câncer de mama, sendo 87% de portadoras e 61% de sadias

Entre as sadias, 43% acreditam que poderiam desenvolver a doença e 47% dizem que a causa do tumor seria emocional

Elas apontaram como causas principais para o desenvolvimento da doença: hereditariedade e predisposição (32%); emoções contidas, mágoas, entre outros (28%) e estresse (24%)

A repórter viajou a convite da Pfizer


* matéria publicada no dia 29/5/2009

Foto: Divulgação/ Campanha contra câncer de mama

ClicaBrasília

Ana Botafogo faz apresentação em Brasília de espetáculo inédito
Por Joyce Gomes, da redação do Clicabrasilia.com.br*
Foto: divulgação


Dois meses de trabalho. A rotina é de ensaio e aquecimento com uma hora de intervalo para descanso e mais uma para fazer a maquiagem, se arrumar e preparar para a dança. Pela primeira vez, a remontagem de Suíte Floral-As quatro estações, é interpretada. O palco escolhido foi de Brasília. Antes da apresentação, a bailarina Ana Botafogo faz o sinal da cruz e bate três vezes na madeira. Reza para que tudo dê certo, porque, nas palavras da dançarina, cada dia é um dia e cada espetáculo tem gosto de estréia.

A aflição do início acaba quando está em cena. Os gestos suaves da primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro interpretam a emoção da música, como bem planejou o coreógrafo e diretor Luis Arrieta. Para completar, a pianista Lilian Barreto toca ao vivo, firmando a parceria de 16 anos com a bailarina. "Nós tivemos a oportunidade de trabalhar lado a lado, na mesma sala, e passamos a ter ideias e pensar arte juntas. Fizemos apresentações e vimos que as pessoas gostavam muito desse formato de música e dança", explica Lilian.

O espetáculo leva ao público o sentimento das estações do ano, como se cada uma delas fosse momentos da vida. "Tem dia que você pode ter na sua própria vida a primavera, o verão, o outono e o inverno, se você estiver desanimado. Mas logo em seguida, a primavera vem de novo. É exatamente disso que as músicas falam", argumenta Ana Botafogo ao analisar a metáfora do espetáculo. A dança é acompanhada pelas estações de compositores consagrados como Vivaldi, Piazzolla, Tom Jobim e Villa-Lobos. Além de Lilian Barreto, mais três músicos compõem a apresentação de uma hora ininterrupta. Ana Botafogo dança com o bailarino Joseny Coutinho, colega do Theatro Municipal.

O espetáculo movimentou uma equipe de doze pessoas só do Rio de Janeiro. Segundo a produtora Iza Gilz, foram necessários dois dias para a montagem, sem contar com os ajustes finais de luz e som na hora do ensaio. A produção está em cartaz desde quinta-feira (23) no Espaço Brasil Telecom e os ingressos do fim de semana já se esgotaram antes da estréia. Suíte Floral é tão esperada pelo público quanto foi para a inspiradora do espetáculo de Luis Arrieto."Curti muito a concepção da Suíte Floral. Não posso negar que adoro os grandes clássicos, mas esse é um espetáculo meu, coreografado especialmente para mim. É também um filho querido", garante Ana Botafogo.

Além de Suíte Floral, a parceria entre as artistas Ana Botafogo e Lilian Barreto já havia rendido dois espetáculos. A ideia era sair do clássico como Quebra-Nozes e Giselle e buscar uma integração para que músicos e bailarinos estivessem juntos no palco trocando energia e invertendo os papéis. É o caso da primeira parceria, Concertos Coreografados, ou Ana Botafogo in concert. "Música ao vivo tem aquela emoção do artista no momento, nunca é exatamente igual. A gravada é exatamente a mesma coisa, você acaba automatizando", afirma Ana Botafogo ao justificar a escolha. "No nosso trabalho, tanto o bailarino quanto o músico tem de estar em completa sintonia. Um depende do outro, do momento do outro. Assim, público se encanta mais", garante. O espetáculo Três Momentos do Amor seguiu o mesmo formato. Foi apresentado por sete anos e teve o início de turnê também em Brasília.

Trabalhar junto, porém nem sempre é uma tarefa fácil. Os músicos, em geral, costumam se preparar em casa, estudando sozinhos. Somente depois se reúnem para fazer, no máximo, três ensaios. Para os bailarinos, a situação parece ser mais complexa. Eles precisam estar juntos para aprenderem o movimento. O processo é diferente, mas no final, todos têm de trabalhar com união, integração e entendimento. Isso acontece no Suíte Floral. "Esse espetáculo é bacana porque são quatro músicos e dois bailarinos. É como um jogo: a bola vai de um lado para o outro, mas o interesse é de fazer gol", interpreta Lilian Barreto.

Trajetória
Com seis anos, Ana Botafogo foi levada pela mãe para as aulas de dança, em uma escola próxima à casa em que morava no Rio de Janeiro. "Eu me encantei com o balé desde o início", conta Ana Botafogo.

Com o apoio da família, fez o primeiro trabalho na França. Ao voltar para o Brasil revelou um desejo aos pais, que sempre apoiaram a filha. "Meu sonho era ir para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro", lembra Ana Botafogo. Mal sabia que o balé faria dela a primeira bailarina do Theatro, em 1981.

"A Ana representa a dança brasileira, ontem, hoje e sempre. Vê-la no palco é um incentivo para todos nós, porque ela passa muita energia, carisma, talento e, sobretudo, a versatilidade", afirma Lilian Barreto. "É uma bailarina rara que pode dançar Quebra-Nozes ou uma música contemporânea, como no nosso espetáculo, com o mesmo talento. Em Suíte Floral ela dança naponta e dança descalça. Você vê a mesma intensidade, a mesma energia, a mesma arte", elogia.

Com 31 anos de carreira, a bailarina conhecida no mundo inteiro, revela que está perto o momento de pendurar as sapatilhas. "Agora estou na maturidade da minha carreira. Mas eu quero parar assim, enquanto eu estiver dançando bem. Ainda não tem nada previsto, mas está próximo", declara Ana Botafogo.


* publicada em 24/04/2009 - 14:54:55

sábado, 20 de junho de 2009

Fenaj

Oito contra oitenta mil
Oito contra 180 milhões
*

Perplexos e indignados os jornalistas brasileiros enfrentam neste momento uma das piores situações da história da profissão no Brasil. Contrariando todas as expectativas da categoria e a opinião de grande parte da sociedade, o Supremo Tribunal Federal (STF), por maioria, acatou, nesta quarta-feira (17/6), o voto do ministro Gilmar Mendes considerando inconstitucional o inciso V do art. 4º do Decreto-Lei 972 de 1969 que fixava a exigência do diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista. Outros sete ministros acompanharam o voto do relator. Perde a categoria dos jornalistas e perdem também os 180 milhões de brasileiros, que não podem prescindir da informação de qualidade para o exercício de sua cidadania.

A decisão é um retrocesso institucional e acentua um vergonhoso atrelamento das recentes posições do STF aos interesses da elite brasileira e, neste caso em especial, ao baronato que controla os meios de comunicação do país. A sanha desregulamentadora que tem pontuado as manifestações dos ministros da mais alta corte do país consolida o cenário dos sonhos das empresas de mídia e ameaça as bases da própria democracia brasileira. Ao contrário do que querem fazer crer, a desregulamentação total das atividades de imprensa no Brasil não atende aos princípios da liberdade de expressão e de imprensa consignados na Constituição brasileira nem aos interesses da sociedade. A desregulamentação da profissão de jornalista é, na verdade, uma ameaça a esses princípios e, inequivocamente, uma ameaça a outras profissões regulamentadas que poderão passar pelo mesmo ataque, agora perpetrado contra os jornalistas.

O voto do STF humilha a memória de gerações de jornalistas profissionais e, irresponsavelmente, revoga uma conquista social de mais de 40 anos. Em sua lamentável manifestação, Gilmar Mendes defende transferir exclusivamente aos patrões a condição de definir critérios de acesso à profissão. Desrespeitosamente, joga por terra a tradição ocidental que consolidou a formação de profissionais que prestam relevantes serviços sociais por meio de um curso superior.

O presidente-relator e os demais magistrados, de modo geral, demonstraram não ter conhecimento suficiente para tomar decisão de tamanha repercussão social. Sem saber o que é o jornalismo, mais uma vez – como fizeram no julgamento da Lei de Imprensa – confundiram liberdade de expressão e de imprensa e direito de opinião com o exercício de uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética.

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), como entidade de representação máxima dos jornalistas brasileiros, esclarece que a decisão do STF eliminou a exigência do diploma para o acesso à profissão, mas que permanecem inalterados os demais dispositivos da regulamentação da profissão. Dessa forma, o registro profissional continua sendo condição de acesso à profissão e o Ministério do Trabalho e Emprego deve seguir registrando os jornalistas, diplomados ou não.

Igualmente, a FENAJ esclarece que a profissão de jornalista está consolidada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. No caso brasileiro, a categoria mantém suas conquistas históricas, como os pisos salariais, a jornada diferenciada de cinco horas e a criação dos cursos superiores de jornalismo. Em que pese o duro golpe na educação superior, os cursos de jornalismo vão seguir capacitando os futuros profissionais e, certamente, continuarão a ser a porta de entrada na profissão para a grande maioria dos jovens brasileiros que sonham em se tornar jornalistas.

A FENAJ assume o compromisso público de seguir lutando em defesa da regulamentação da profissão e da qualificação do jornalismo. Assegura a todos os jornalistas em atuação no Brasil que tomará todas as medidas possíveis para rechaçar os ataques e iniciativas de desqualificar a profissão, impor a precarização das relações de trabalho e ampliar o arrocho salarial existente.

Neste momento crítico, a FENAJ conclama toda a categoria a mobilizar-se em torno dos Sindicatos. Somente a nossa organização coletiva, dentro das entidades sindicais, pode fazer frente a ofensiva do patronato e seus aliados contra o jornalismo e os jornalistas. Também conclama os demais segmentos profissionais e toda a sociedade, em especial os estudantes de jornalismo, que intensifiquem o apoio e a participação na luta pela valorização da profissão de jornalista.

Somos 80 mil jornalistas brasileiros. Milhares de profissionais que, somente através da formação, da regulamentação, da valorização do seu trabalho, conseguirão garantir dignidade para sua profissão e qualidade, interesse público, responsabilidade e ética para o jornalismo.

Para o bem do jornalismo e da democracia, vamos reagir a mais este golpe!


* 18 de junho de 2009, Diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ

Lapidando histórias...

Angústia pela Vitória
A batalha de uma adolescente de Arapoanga para reconquistar a filha
por Joyce Gomes
Fotos: Joyce Gomes

O quarto da criança foi cuidadosamente montado. As bonecas e os bichos de pelúcia enfeitam a cama coberta pelo lençol estampado com os personagens Disney. Os balões rosa e brancos pendurados no teto não escondem a festa da chegada do grande dia. A dona do cantinho preparado recebeu o nome de Maria Vitória, o bebê do retrato em cima do criado mudo. A espera não foi de apenas nove meses. A briga da mãe Gislene Antunes, de 18 anos, para ter a filha demorou quase cinco anos na Justiça. Agora que ganhou a guarda, a adolescente passa por um novo drama: a luta para encontrar a menina.

Desde os seis meses de idade Vitória mora com um casal de conhecidos do pai de Gislene. Violento, obrigou a adolescente a assinar a autorização de adoção da menina. Desde o último julgamento, o casal fugiu com a criança e a jovem não consegue ter a filha que deveria morar com ela por direito.

As dificuldades de Gislene, no entanto, não começam com a perda do bebê. Com apenas 11 anos, a adolescente foi vítima de violência sexual cometida pelo padrasto. Do ato criminoso, nasceu Vitória. Na mesma época, a avó da recém-nascida tinha acabado de ter um filho, que viria a ser meio irmão, meio tio de Vitória, fruto do relacionamento da mãe com o mesmo homem. Com a confirmação do caso de estupro e assim que saiu do hospital onde a neném nasceu, Gislene teve a guarda dela e da filha passada para o pai. "Ele pegou a minha guarda sem eu saber. Não queria ir de jeito nenhum, porque ele era agressivo comigo", conta a garota. Legalmente, a guarda não poderia ter sido executada. A advogada e professora de Direito do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) Andrea Vasquez, que cuida do caso, afirma que era preciso ter o consentimento de Gislene. "A atitude não foi pensada. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê que a criança tem de ser ouvida antes que se tome qualquer decisão", explica.

Durante a permanência com o pai, a adolescente afirma ter revivido cenas de crueldade. Abuso sexual, marcas de espancamento, maus tratos e xingamentos faziam parte da rotina da jovem mantida em cárcere privado. "Fiquei trancada no quarto com cadeado. Só comia e bebia água quando ele queria". O bebê também foi maltratado. "Minha filha passava fome. Ele colocou pimenta no meu seio para eu não dar de mamar para ela", relembra. Durante seis meses a menina diz que pôde ter contato com a filha, mas logo o pai deu um jeito de se livrar da criança. "Fiquei uma semana sem ver minha filha. Para me fazer chantagem meu pai falava que tinha levado ela para o Conselho Tutelar". Depois o pai voltou com a criança e Gislene recebeu a notícia de que a menina estava sendo cuidada por um casal que tinha um açougue na vizinhança.

Além dos atos de violência que teriam sido cometidos pelo pai, a adolescente conta que ele impôs que Vitória fosse doada para o casal. Vendo que o bebê estava mais saudável, Gislene aceitou que eles cuidassem temporariamente da filha. No entanto, teve de assinar o pedido de adoção, segundo ela, obrigada pelo pai, e dizer que não tinha condições de cuidar do bebê. "A Vara da Infância aceitou adoção sem qualquer questionamento. Não procuraram saber se realmente não tinham recursos ou sequer perguntaram sobre a gravidez precoce da menina", relata a advogada Andrea Vasquez.

Mesmo com a perda da filha, Gislene continuou a ser agredida e humilhada. A adolescente pediu ajuda para a mãe, vizinhos, polícia e Conselho Tutelar. "Quando os assistentes sociais foram ver o que estava acontecendo, meu pai me dava banho e me vestia com roupas compridas para esconder as marcas de agressão. O quarto que eu estava virava o quarto da bagunça e o arrumado era apresentado como meu". Assim, como a situação era aparentemente normal, nada acontecia. A cada visita feita, o castigo dobrava. "Ele chegou a lavar meu rosto com a água do vaso sanitário quando o pessoal do Conselho saiu", lembra a adolescente. "Era covarde, frio. Não amava nem a ele mesmo", recorda.

Presa no quarto, Gislene se comparava a um pássaro. "Ficava me imaginando como uma ave presa numa gaiola que na primeira oportunidade voaria para longe daquele lugar". Conseguiu, porém, falar com uma das vizinhas que lhe passou um celular aproveitando que a janela do quarto tinha sido esquecida aberta. Pediu socorro novamente ao Conselho Tutelar. "Tive que falar bem baixinho no telefone, com medo do meu pai me escutar". No outro dia, os assistentes apareceram sem que nenhum cenário fosse preparado. A menina aproveitou um descuido do pai e correu até a sacada para ser vista. "Eles me olharam assustados e eu disse que se não me tirassem de lá iria pular. Se era para morrer, que fosse logo e não em um processo lento como estava sendo", lembra com angústia.

Depois de tudo o que aconteceu, a menina foi levada à delegacia de Planaltina e em seguida ao Instituto Médico Legal para fazer um exame que comprovasse as supostas agressões. Conclusão do laudo: "Lesões contusas (hematomas) com requintes de crueldade". Gislene foi encaminhada para o Centro de Abrigamento e Reencontro (Cear), em Taguatinga. Após quase cinco meses, a adolescente voltou a morar com a mãe.

Luta na Justiça
O sofrimento que Gislene passou não fez a menina esquecer a filha que foi obrigada a dar. A luta foi diária para recuperar o direito de ser mãe. A cada audiência pedida, a guarda era negada. Mas a esperança nunca deixou de existir. Conseguiu visitar a filha oito vezes no período de novembro de 2003 até fevereiro de 2004, assistida por psicólogos. Quando o prazo acabou, recusaram a renovação.

Em junho de 2006, a garota passou a receber ajuda psicológica do Centro de Referência, Pesquisa, Capacitação e Atenção Integral à Adolescência (Adolescentro), indicada pela Vara da Infância e Juventude. Com mais de um ano de atendimento, o Centro mandou à Justiça um relatório clínico pedindo que a guarda de Vitória fosse dada à Gislene para que os danos da separação não aumentassem com o decorrer do tempo: "(...) a concessão do efeito suspensivo à apelação se faz necessária ante o receio de dano irreparável ou de difícil reparação ao se efetivarem os efeitos da sentença proferida, não se permitindo o contato entre mãe e filha, sequer por meio de visitas", diz o relatório.

Foi informada, mais tarde, que o Adolescentro tinha uma parceria em um projeto de pesquisa entre as áreas de saúde e jurídica, com o Iesb. Foi atrás. A advogada Andrea Vasquez atendeu a jovem e passou a defendê-la judicialmente. "O Adolescentro foi um flash de luz na minha vida", relembra a adolescente. Os estagiários se sensibilizaram com o caso de Gislene. "Geralmente os alunos do oitavo e nono semestres que fazem o atendimento. No caso de Gislene, tivemos a ajuda de estudantes de outros semestres", conta a advogada.

A aluna Manuela Serejo, do nono semestre de Direito do Iesb, lembra da primeira vez que atendeu a adolescente. "Apesar da triste história de vida, a intenção de Gislene não era de vingança", pondera. "O maior medo dela era de que a filha achasse que não lutou para tê-la de volta". Com o empenho dos professores e estagiários de Direito, uma nova audiência foi feita no dia dois de abril de 2008. "Gislene ficou radiante quando a data do julgamento foi marcada", recorda Manuela. As cadeiras da platéia lotaram com os alunos que cuidaram do caso. A mãe de Vitória ficou mais nervosa ao ver quem era o desembargador. "Ele tinha negado meu pedido de visita à minha filha no Natal e no Ano Novo do ano passado", diz. Mas, dessa vez, a situação havia mudado.

O relator do processo, o desembargador Teófilo Rodrigues, demorou quase duas horas para descrever o caso de mais de 50 páginas. Ele podia apenas lido o resultado. Preferiu, no entanto, contar a história olhando para a jovem mãe. A adolescente não entendia bem o que queriam dizer. "Eu ganhei?", perguntava sem saber ao certo. O desembargador Arnoldo Camanho, também responsável por dar voto no julgamento, pediu desculpas pelo que a Justiça brasileira fez com a menina. Uma frase dita por ele marcou a decisão final: "Toda vez que veja a sua filha e toda vez que escute ou fale o nome dela, que é Vitória, lembre-se dessa conquista aqui no seio deste Tribunal de Justiça e que ela seja feliz ao lado da sua filha, espero, ao longo de muitos anos". A comoção tomou conta da platéia. "Gislene me deu um abraço chorando e falou que era o dia mais importante da vida dela", recorda Manuela, emocionada por ter participado do dia vitorioso da menina.

A espera
Após o sucesso do julgamento, Gislene foi logo preparando o quarto da filha. "Queria tudo perfeito para quando voltasse", conta. Na porta do local, a frase de boas vindas escrita pela jovem mãe: "Ontem você fez parte de apenas um sonho. Hoje, você faz parte da minha realidade". Mesmo assim a mãe sabe que o encontro com a filha não será harmonioso. "A Vitória cresceu achando que tinha uma bruxa na Vara da Infância querendo pegá-la", lamenta Gislene. "Sei que nos primeiros dias vai ser muito difícil. Mas, com certeza, o que não vai faltar é amor", afirma.

A procura pela Vitória continua mesmo com a sentença de busca e apreensão dada em juízo. É que o casal que tinha a guarda provisória da menina desaparece a cada busca feita pela Justiça. "Em uma das procuras, uma moça disse que eles teriam viajado para o Sul com minha filha", diz Gislene, aflita. "Apesar de tudo, acredito que vou tê-la de volta. Mas está sendo muito difícil esperar", diz, ansiosa. Diante dos fatos ocorridos com Gislene, as lembranças ruins parecem que não vão assombrá-la. "Não procuro lembrar o que aconteceu comigo. Agora vou começar outra vida", afirma. E o futuro já está planejado. "Vou fazer Direito. Não quero que nenhuma mãe seja injustiçada como eu fui", idealiza a adolescente. O gerente do Adolescentro Valdi Craveiro Bezerra também está na torcida da garota. "Nós estamos dando o apoio psicológico para a família. Ficamos, agora, na expectativa de que os outros órgãos façam a parte deles", diz. Agora é só aguardar a filha adentrar pela porta da casa para começar um novo capítulo da história real de Gislene: a conquista do sonho, o encontro com a Vitória.


Para saber mais:

Adolescentro: O Centro de Referência, Pesquisa, Capacitação e Atenção Integral à Adolescência (Adolescentro) da Secretaria de Estado de Saúde do DF recebe, em média, 750 atendimentos por mês. O público alvo são adolescentes de Brasília e do entorno, de 10 a 18 anos, bem como as famílias.

A equipe é formada por 14 profissionais, sendo dois especialistas em adolescentes, um neuropediatra, um psiquiatra, uma assistente social, três enfermeiros, dois ginecologistas e quatro psicólogas. Várias instituições como a Vara da Infância e Juventude, Conselhos Tutelares, Promotoria e Casa Abrigo, encaminham os jovens para o local para que recebam um atendimento completo.

As atividades do Adolescentro começaram em fevereiro de 1982 na Unidade de Pediatria do Hospital de Base do DF. Em setembro de 2006, o Centro de Saúde Número Seis foi transformado em Adolescentro pela secretaria de Saúde.

Nos casos de violência sexual e uso de drogas, considerados mais graves, a pessoa é encaminhada para fazer uma entrevista e, em seguida, a consulta é marcada. Nos demais casos, como dificuldade escolar, tem de aguardar ser chamado. O atendimento é feito de acordo com as vagas.

Horários: segunda a sexta -feira/ De 7h30 às 17h30
Endereço: L2 Sul, quadra 605, Centro de Saúde 06
Telefone: 3242 1447
Site: http://www.adolescentro.blogspot.com/



EAJ: O Escritório de Assistência Jurídica (EAJ) foi criado em 2001 para atender a população de Sobradinho/DF. O objetivo era de prestar serviço de assistência jurídica nas áreas civil e penal para a comunidade e oferecer a prática para os alunos de Direito. Em 2006, o escritório foi transferido para o Plano Piloto, fazendo parte do Núcleo de Práticas Jurídicas do Iesb (NPJ).

Os estagiários do EAJ fazem atendimento de causas relacionadas à violência doméstica praticada contra mulheres, adolescentes e crianças. Acompanham os casos, conciliações, atuam no tribunal do júri, fazem o encaminhamento para tratamentos psicológicos e fisioterápicos.

Os principais objetivos do EAJ é dar uma visão crítica para os alunos da prática do Direito, para que eles entrem em contato com os problemas sociais e se integrem com a comunidade carente, estimulando, assim, o raciocínio jurídico voltado à defesa dos direitos humanos.


Atualmente, cerca de 1.300 processos correm no escritório. A equipe é formada por uma média de 250 alunos por semestre, além de sete professores orientadores e quatro advogados. O atendimento é voltado para as pessoas que não têm condições de pagar advogado.

Horário de funcionamento:
Segunda a Sábado
8h às 12h e 14h às 18h
Terça e quinta-feira
18h às 22h

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A vida que ninguém vê

A história de um olhar
por Eliane Brum

O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.


Inclui.

Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva.

Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.

Um olhar que nasceu na Vila Kephas. Dizem que, em grego, kephas significa pedra. Por isso um nome tão singular para uma vila de Novo Hamburgo. Kephas foi inventada mais de uma década atrás pedra sobre pedra. Em regime de mutirão. Eram operários da indústria naqueles tempos nada longínquos. Hoje, desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos.

Nesta Kephas cheia de presságios e de misérias vagava um rapaz de 29 anos com o nome de Israel. Porque em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado. Há sempre alguém para ser chutado por expressar a imagem-síntese, renegada e assustadora, do grupo. Israel, para a Vila Kephas, era esse ícone. O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.

Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das idéias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado. Israel era cuspido. Era apedrejado. Israel era a escória da escória.

Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo.Bom de bola. Bom de rua. De tanto gostar do menino que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Até a porta onde Lucas desaparecia todas as tardes, tragado sabe-se lá por qual magia. Até a porta onde as crianças recebiam cucas e leite. Israel chegou até lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de olhar.

Aconteceu neste inverno. Eliane, a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado, quase desaparecido dentro dele mesmo. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão, dando a cara para bater porque nunca foi capaz de escondê-la.

Eliane viu Israel. E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou naquele olhar é um milagre de gente. Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro.

Capturado por essa irresistível imagem de si mesmo, Israel perseguiu o olho de espelho da professora. A cada dia dava um passo para dentro do olhar. E quando perceberam, Israel estava no interior da escola. E, quando viram, Israel estava na janela da sala de aula da 2ª série C. Com meio corpo para dentro do olhar da professora.

Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando para dentro. Cantando do lado de fora, desenhando com os olhos. Quando o chamavam, fugia correndo. Escondia-se atrás dos prédios. Mas devagar, como bicho acuado, que de tanto apanhar ficou ressabiado, foi pegando primeiro um lápis, depois um afago. E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo dentro do olhar da professora.

E o olhar começou a se espalhar, se expandir, e engolfou toda a sala de aula. A imagem se multiplicou por 31 pares de olhos de crianças. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta, ganhou lápis de cor. E, no dia seguinte, Israel chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora. Trazia até umas pupilas novas, enormes, em forma de facho. E um sorriso também recém-inventado. Entrou na sala onde a professora pintava no chão e ela começou a chorar. E as lágrimas da professora, tal qual um vagalhão, terminaram de lavar a imagem acossada, ferida, flagelada de Israel.

Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais o abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias, puxam a mão e lhe ensinam palavras novas. Refletido por esses olhos, Israel passou a refletir todos eles. E a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel. E as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.

Israel, não importa se alguém não gosta de você. O que importa é que você siga a vida, aconselha Jéferson, de oito anos. Israel, não faz mal que tu sejas grande e um pouco doente, tu podes fazer tudo o que tu imaginares, promete Greice, de nove. Israel, se alguém te atirar uma pedra eu vou chamar o Vandinho, porque todo mundo tem medo do Vandinho, tranqüiliza Lucas, nove. Israel, tu me botas na garupa no recreio?

E foi assim que o olhar escorreu pela escola e amoleceu as ruas de pedra.

Israel, depois que se descobriu no olhar da professora, ganhou o respeito da vila, a admiração do pai. Vai ganhar uma vaga oficial na escola. Já consegue escrever o “P” de professora. E ninguém mais lhe atira pedras. A professora, depois que se descobriu no olhar de Israel, ri sozinha e chora à toa. Parou de reclamar da vida e as aulas viraram uma cantoria. A redenção de Israel foi a revolução da professora .

Em 7 de Setembro, Israel desfilou. Pintado de verde-amarelo, aplaudido de pé pela Vila Pedra.

Blog de Leandro Fortes

Péssima notícia
por Leandro Fortes

O fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é uma derrota para a sociedade brasileira, não esta que discute alegremente conceitos de liberdade de expressão e acredita nas flores vencendo o canhão, mas outra, excluída da discussão sobre os valores e os defeitos da chamada “grande imprensa”. São os milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito.

Tenho ouvido, há anos, como continuei ouvindo, hoje, quando o STF decidiu por oito votos a um acabar com a obrigatoriedade do diploma, essa lengalenga interminável sobre os riscos que a liberdade de expressão sofria com a restrição legal a candidatos a jornalistas sem formação acadêmica específica. Esse discurso enviesado de paixão patronal, adulado aqui e ali por jornalistas dispostos a se sintonizar com os sempre citados países do Primeiro Mundo que não exigem diploma, gerou uma percepção falaciosa, para dizer o mínimo, de que para ser jornalista basta apenas ter jeito para a coisa, saber escrever, ser comunicativo ou, como citou um desses ministros do STF, “ter olho clínico”. Foi baseado nesse amontoado de bobagens, dentro de uma anti-percepção da realidade do ofício, que se votou contra o diploma no Supremo.

Conheço e respeito alguns (poucos) jornalistas, excelentes jornalistas, que sempre defenderam o fim do diploma, e não porque foram cooptados pelo patronato, mas por se fixarem em bons exemplos e na própria e bem sucedida experiência. São jornalistas de outros tempos, de outras redações, de outra e mais complexa realidade brasileira, mais rica, em vários sentidos, de substância política e social. Não é o que vivemos hoje. Não por acaso, e em tom de deboche calculado, o ministro Gilmar Mendes, que processa jornalistas que o criticam e crê numa imprensa controlada, comparou jornalistas a cozinheiros e costureiros ao declarar seu voto pelo fim da obrigatoriedade do diploma. É uma maneira marota de comemorar o fim da influência dos meios acadêmicos de esquerda, historicamente abrigados nas faculdades de jornalismo, na formação dos repórteres brasileiros.

Sem precisar buscar jornalistas formados, os donos dos meios de comunicação terão uma farta pescaria em mar aberto. Muito da deficiência dessa discussão vem do fato de que ela foi feita sempre pelo olhar da mídia graúda, dos jornalões, dos barões da imprensa e de seus porta-vozes bem remunerados. Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.

O fim da obrigatoriedade do diploma vai, também, potencializar um fenômeno que já provoca um estrago razoável na composição das redações dos grandes veículos de comunicação: a proliferação e a expansão desses cursinhos de trainee, fábricas de monstrinhos competitivos e doutrinados para fazer tudo-o-que-seu-mestre-mandar. Ao invés de termos viabilizado a melhoria dos cursos de jornalismo, de termos criado condições para que os grandes jornalistas brasileiros se animassem a dar aulas para os jovens aspirantes a repórteres, chegamos a esse abismo no fundo do qual se comemora uma derrota.

De minha parte, acho uma pena.


http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2009/06/17/pessima-noticia/#comments

Lapidando histórias...

A identidade hippie está em crise
Micróbios, hippies e artesãos contestam o modo de vida da sociedade atual, mas não sabem quem realmente são

por Joyce Gomes*
Fotos: Joyce Gomes

Está em crise a identidade daqueles que buscam viver o presente viajando de cidade em cidade apenas com a roupa do corpo e os trabalhos feitos manualmente. Os cabelos grandes e desalinhados, as roupas largas, a fala pausada e as pulseiras, colares e brincos espalhados pelo chão fazem a maioria das pessoas os conhecerem como hippies. Mas nem eles sabem quem são de fato.

Grande parte dos artistas de rua, como gostam de ser chamados, não usa o nome verdadeiro. Flávio, Eterno, Ruan, Folha, Júlia, Robson e Thales é a forma como alguns dos que estão em Brasília são conhecidos.

Os que se consideram hippies procuram expor as peças perto de locais culturais ou onde encontram pessoas para trocar conhecimentos, como em universidades. Em frente ao Instituto de Integração Social e Promoção da Cidadania (Integra), o som da gaita do hippie Eterno chama a atenção daqueles que passam apressados pela W3 Sul. Quem pára para apreciar o trabalho exposto no chão e em painéis é presenteado com uma poesia. "Sou um dos poucos hippies que ainda existem. Fico onde tem gente para trocar uma idéia. Em cada cidade que viajo, busco o intercâmbio cultural", diz Eterno, de 44 anos, 29 de estrada.

O amigo Folha, que Eterno conheceu há duas semanas, discorda. "Você não é hippie. Hoje não existe ninguém da geração hippie, nem da geração de antes da década de 60", contesta. "Eu me
considero um artesão. Estou fora desse papo de sexo livre", afirma. Folha se refere à atitude comum entre hippies da década de 60 de praticar o sexo livre.

O antropólogo Antônio Flávio Testa explica que o sexo sem preocupações e o casamento aberto viraram moda na década de 60 quando o uso do anticoncepcional foi universalizado. A filosofia hippie, porém, não se resumia ao sexo livre. "Os hippies são substratos da contracultura do final dos anos 60. Eles contestaram a ordem estabelecida e descartaram o consumo", diz Testa.

Outro segmento do movimento, chamado micróbios, herdou dos hippies da década de 60 a idéia de desapego à matéria. "Estou longe desse negócio de dinheiro. Hoje as pessoas se preocupam mais com o ter do que com o ser", diz Robson, de 22 anos. "Essa história de ser hippie tem altas contradições. Hippie foi um movimento. Só sei que somos micróbios, nos adaptamos em qualquer circunstância", conclui.

Os micróbios
Os micróbios
são intitulados assim pela facilidade que têm de resistir a lugares diferentes. Qualquer cidade é boa para eles. "Todos os lugares que passamos são da hora, porque conhecemos pessoas diferentes e cada um tem alguma coisa para ensinar", diz o micróbio Flávio. "A gente deixa o nada para ter tudo. Só quem vive assim consegue saber o que é", afirma Thales, de 35 anos.

Segundo o psicólogo Aderson Luiz Costa Júnior, para alguém deixar a vida, a família, a casa, tem de ter certeza das conseqüências da decisão. "Quando uma pessoa deixa tudo o que tem para viver em outra estrutura, tem de ser uma decisão segura e tomada conscientemente", afirma. "Fazer isso por protesto ou opção de vida sem planejar é um risco alto, pois causa o aumento da população mendiga", alerta. Em contrapartida, o antropólogo Testa acredita que os hippies de hoje levam a vida nas ruas por não se adaptarem à sociedade. "Eles resolvem sair da sociedade atual por não se ajustarem. Mas isso é só uma fase. Do ponto de vista sociológico, o homem estabelece raízes em algum momento da vida", explica.

O motivo que fez essas pessoas mudarem o estilo de vida pode ser variado. "Alguns integrantes do movimento foram para a rua de coração. Outros, por falta de opção", afirma Flávio. O hippie Eterno e o artesão Folha têm histórias comuns. As mães não aceitavam que eles usassem drogas. O primeiro foi submetido a um tratamento psicológico. O segundo a uma clínica para dependentes. Já os micróbios Robson, Thales e Flávio eram apaixonados pelo artesanato e repudiavam a ganância. Resolveram, portanto, levar as peças fabricadas por eles às diversas cidades do Brasil, conhecendo pessoas e vivendo apenas com o que tinham, sem querer mais.

Nenhum deles tem consciência do que realmente é. Podem ser micróbios, hippies, artesãos ou apenas pessoas que buscam viver de uma forma diferente, seja para contestar a sociedade atual, ou para curtir cada momento. O pensamento de todos, entretanto, coincide em um ponto. "A rua é uma faculdade da vida. Aqui a gente aprende coisas que não tem em nenhuma escola. É aqui que quebramos o preconceito e aprendemos o que é família", garante o micróbio Robson.

* Matéria feita em abril de 2008

Lapidando histórias...

Alegria, até sem público
Apesar do desânimo do público os artistas circenses continuam de pé para o espetáculo continuar


por Joyce Gomes *
Fotos: Joyce Gomes


O Grande Circo Popular do Brasil não pára. Com as arquibancadas lotadas, ou com apenas 10% do público esperado, o espetáculo do circo do ator Marcos Frota esteve sete meses no Distrito Federal e passou por cidades como Ceilândia, Gama e Sobradinho. A população do Paranoá foi contemplada com a última temporada do circo, sendo que, no último domingo, foram apresentadas quatro sessões. A diferença no número de pessoas que assistiram ao espetáculo foi grande ao comparar a primeira e a última sessão. Mas os artistas circenses fazem de tudo para manter o astral nas apresentações. Para eles, o público é quem dita o ritmo do show.

O público que ocupou as arquibancadas com capacidade para 1.500 pessoas não chegava a 50, pela manhã. A energia do palhaço ao entrar no palco do circo e a magia dos efeitos de luz e som pareciam desaparecer com o desânimo de quem assistia à apresentação. "É complicado apresentar quando tem poucas pessoas. A gente trabalha com a animação do público. Ele é o grande responsável pela qualidade do espetáculo", afirma o palhaço Cléber Daroni, o Batata.

Muitas vezes os artistas têm de usar a criatividade para chamar a atenção do público. Na apresentação da manhã de domingo, o palhaço buscou a participação das pessoas que estavam assistindo ao show. "O palhaço trabalha com a reação do público. Se eles não acham graça, temos que inventar algo novo para entretê-los", explica Batata. Mas nem sempre é a quantidade de pessoas que faz do show um espetáculo único ou simplesmente um treino para aperfeiçoar os movimentos. "Muitas vezes o circo está lotado, mas tem uma pessoa que não demonstra interesse por nosso trabalho e, por incrível que pareça, ela consegue tirar a nossa concentração", diz o acrobata Gilson Lima, de 22 anos. "Quando isso acontece, eu trabalho para esse maldito que não está se divertindo. Enquanto não rir, meu trabalho continua voltado para ele", brinca o palhaço Batata.

Diferente do pequeno público da manhã, o espetáculo da noite de domingo teve um público estimado a 900 pessoas. Cada aplauso e expressão de admiração da platéia incentivava o artista a realizar o número com mais perfeição. O acrobata Gilson Lima empolgou com a participação e alegria do público da noite. Em vez de salto simples com perna-de-pau, resolveu inovar e dar um duplo mortal. Ovacionado, Gilson confessa que às vezes a animação do público os leva aos extremos para fazer a acrobacia e, muitas vezes, acabam se machucando.

A diferença entre as apresentações dos dois turnos não pára por aí. À noite, tudo parece transformar. A cena da contorcionista, rodeada por homens de tanga, é aprimorada com as tochas de fogo em volta da artista. O mágico não parece mais um amador de truques fazendo a pomba aparecer, quase revelando o segredo. Ele transforma o fogo em flor de maneira ágil e intrigante. A mulher que faz acrobacias na corda pendurada no teto do circo tem apresentação inédita e provoca admiração do público. "Ave Maria! É doida!", "Como consegue fazer isso?", grita a platéia surpreendida ao observar a acrobata se contorcer no alto do circo. "Cada espetáculo é diferente. Não só pela animação do público, que conta muito, mas pela seleção dos números que vão ser apresentados", diz o artista Gilson Lima.

Independente da quantidade de pessoas, do local ou do horário, os artistas garantem que começam o espetáculo com a mesma energia e vontade de animar o público. "Quando abre a cortina o que conta é colocar o ensaio que tivemos em prática para alegrar o pessoal. Olho para os lados para ver quem está debaixo da lona do circo e entro no palco. A partir daí, estamos lá para o que der e vier", diz o palhaço Batata. No final do expediente, uma criança se despede acenando e sorrindo para os artistas que estão na entrada do circo. "É para eles que fazemos o show. Por isso, todo o esforço é compensado", diz emocionado.


* Matéria escrita em abril de 2008

Lapidando histórias...

Trilha no morro
Bombeiro leva jovens do Gama para fazer trilhas de bicicleta nos dias de folga

por Joyce Gomes *
Fotos: Joyce Gomes

As pedras e morros não intimidam jovens atletas de fim de semana do Gama. No comando, o bombeiro Marcos Tadeu, de 41 anos, desprende da folga do trabalho para fazer trilha de bicicleta com a garotada. Não é só diversão e segurança que o capitão do grupo proporciona, mas uma verdadeira aula de companheirismo, persistência e preservação ambiental.

A idéia de levar os jovens para desbravarem novos lugares nasceu sem muita pretensão. Os passeios de bicicleta, feitos pelo bombeiro apenas com os filhos Caíque e Thiago, de 13 e 15 anos, se estenderam para as quadras vizinhas. Hoje, cerca de 15 jovens acompanham Marcos pelas trilhas dos morros. O grupo, apelidado de "Descendentes do Cerrado" assume, aos poucos, uma identidade.

O contato com a vegetação típica da cidade, além de tornar o passeio mais agradável, desperta a consciência ambiental nos jovens exploradores do cerrado. Segundo o bombeiro Marcos, a turma leva para a trilha frutas e biscoitos para fazer piquenique pelo caminho. Mas isso só é feito porque existe um acordo entre eles de que o lixo deve ser recolhido para não afetar a natureza.

Marcos tem a preocupação de acolher a todos que desejam fazer a trilha. Não importa a qualidade da bicicleta. São recebidos de braços abertos. O que interessa para os "Descendentes do Cerrado" é a aventura. "Faço a trilha para encher a mente da molecada, incentivar o esporte para evitar que fiquem pela rua", afirma Marcos. A conversa entre os integrantes da trilha é aberta. Marcos já conseguiu tirar um dos meninos do vício da droga. "O Marcão é como um pai. É nosso conselheiro e amigo", diz Glenavam Lima, de 16 anos.

Pelo caminho, o bombeiro Marcos dá assistência àqueles que caem da bicicleta. Nunca houve um ferimento que não tivesse sido solucionado na hora. "A responsabilidade com os meninos é grande. Mas sempre ensino que cada um deve se responsabilizar por si mesmo e pelo colega. Somos uma equipe", afirma Marcos. O companheirismo prevalece nas aventuras. Ninguém é deixado para trás. "Rezamos sempre antes de sair, para pedir proteção", diz. O único que não recebe assistência é o guia da turma. "Nas minhas quedas ninguém ajuda, mas todos riem bastante", brinca.

Os passeios são ensinamentos e diversão a parte para o grupo jovem do Gama. As responsabilidades não podem ser deixadas de lado para que, da próxima vez, o grupo se reúna. "Tenho que voltar mais cedo para ir à igreja, senão estou enrolado com minha mãe", diz Esaú Chaves Teixeira, de 17 anos, que faz as trilhas de bicicleta há três anos e meio.

O olhar de Marcos é atento para cada um que segue na trilha com as bicicletas. Sábados pela manhã e domingos à tarde, o encontro com o bombeiro é certo, exceto quando está de plantão no serviço. As atividades se prolongam nas férias. É só marcar, que Marcos está pronto para levar os "Descendentes do Cerrado" para girar as rodas nas trilhas dos montes. No final do passeio, um banho nas cachoeiras para revitalizar o corpo e subir a ladeira de volta ao lar.

* Matéria escrita em 29 de abril de 2008

Artigo publicado no Correio Braziliense no dia 21 de abril de 2007

Ainda no terceiro semestre do curso de jornalismo, em que tudo ainda parece sonho...


Jornalismo, ideal de justiça
por Joyce Gomes

Numa folha em branco, surgem os traços das primeiras palavras escritas por alguém que acredita no poder de transformar o mundo. Talvez as pessoas olhem as páginas e passem despercebidas pelo trabalho realizado.

Ou quem sabe, milhares delas mergulhem no texto, ansiosas para saber do que se trata. As reações ao se deparar com a notícia são das mais variadas. A atitude de quem a escreve, no entanto, tem de ser única, fundamentada na verdade, na apuração dos fatos.

Esses são os fundamentos de uma das mais belas profissões que busca inspiração nas atitudes da sociedade: o jornalismo.É preciso coragem, perseverança, vontade de consertar o que está errado e, sobretudo, deixar a preguiça de lado em busca da reportagem perfeita.

O jornalista trabalha dia e noite à procura de informações, pistas, frases, gestos, detalhes que sirvam como pilar para a notícia. Pequenos fatos cotidianos são transformados em grandes histórias de interesse público e fatos escabrosos viram manchetes sem sensacionalismo.

O jornalismo tem como objetivo informar o que a sociedade não enxerga ao seu redor. Nessa trajetória, deve-se tratar cordialmente a todos que cruzam o caminho, ouvindo-os, respeitando-os acima de qualquer coisa. Afinal, a matéria-prima do jornalista é o ser humano.

Além disso, ele está longe de ser o dono da verdade, mas se esforça para mostrar todas as versões das histórias para que o público reflita e se posicione em relação ao assunto. É como um pai que mostra os caminhos que a vida pode ter, para o filho escolher qual deve seguir.

A disposição para superar os próprios limites permite dizer que o jornalista, como o sertanejo de Euclides da Cunha em Os sertões, é sobretudo um forte. Forte por enfrentar barreiras para informar as pessoas, como o jornalista José Hamilton Ribeiro, que perdeu a perna na explosão de uma mina terrestre na cobertura da Guerra do Vietnã.

Forte por ficar cara a cara com a morte para denunciar algo errado, como Tim Lopes, assassinado por narcotraficantes em um morro do Rio de Janeiro. Forte por manter seu trabalho numa ditadura, como Vladimir Herzog, torturado até a morte no regime militar.

Mesmo com tantos exemplos de profissionais que dedicaram suas vidas à missão de informar, muitos desperdiçam esse poder. O culto ao furo jornalístico, atrelado à velocidade da notícia, leva à apuração rasa dos fatos. Uma vez que a matéria falsa é publicada, dificilmente a correção terá a mesma intensidade do furo.

No jornalismo não há meio termo. Ou se está certo da informação, ou não a tem. A responsabilidade perante a sociedade é forte demais para deixar a mesquinhez do furo jornalístico sobrepor o fato.

Ser jornalista, portanto, é muito mais do que ter uma mera profissão. É acreditar que a cada texto escrito seu ideal de justiça seja concretizado. Utopia? Não. O jornalista apenas tenta cumprir o seu papel de cidadão da humanidade.