quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Lapidando histórias...

No ritmo do sax
por Joyce Gomes
Foto: Joyce Gomes

A história de um homem que aprendeu a tocar instrumentos de sopro em espaços públicos

Na rodoviária de Brasília, o barulho da rádio que toca axé e sertanejo diminui ao descer as escadas em direção à estação do metrô. Ao passar pelo portão, a música agitada do andar de cima dá lugar ao som leve de jazz, blues, clássica e da velha música popular brasileira. Os mais apressados nem notam. Mas um deficiente visual que caminha em direção à bilheteria do metrô é guiado pela sensibilidade. Pára no meio do caminho e balança a bengala no ritmo da melodia. Um pouco mais afastados da multidão, os responsáveis pelo show: um senhor de 67 anos e um saxofone que o acompanha há dez anos.

A aposentadoria do professor de português Luis Fabrício Ferreira abriu caminhos para colocar as canções em dia. Sempre gostou de música. Agora, o jovem senhor tem mais tempo para se apresentar nos espaços públicos da cidade. A inspiração de Fabrício vem das lembranças do pai repentista, que tocava nas praças. “A música lateja em mim desde a infância. Meu pai fazia repentes e tocava pífano, um tipo de flauta doce de bambu”, relembra. “Era analfabeto, mas sábio na poesia”, afirma.

Para não cair na sina do pai, buscou os estudos. Fez licenciatura e bacharelado em letras português na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), em Curitiba. “Lecionei em dezenas de colégios do DF, dezenas do Paraná e até em Miami. Ensinei redação oficial nas polícias Militar e Civil. Além disso, alfabetizei 19 candangos de 60 a 80 anos pelo projeto Paulo Freire”, enaltece. Fabrício veio de uma cidade chamada Pedro II, cerca de 220 quilômetros de Teresina (PI). Chegou a Brasília quando tudo ainda era novidade. Com apenas dois meses de inaugurada, a capital representou a esperança para Fabrício. “Vim em busca de um ramo de vida melhor”, conta.

Parece que encontrou. Depois de aposentado, percorreu diversos locais públicos do DF pelo simples prazer de tocar. Praças de Ceilândia e Taguatinga, metrôs, igrejas, rodoviária, abrigos de idosos, associações filantrópicas, restaurantes. Nem os shoppings e supermercados escaparam da presença do saxofonista. “Minhas apresentações para o público são sempre de graça”, garante.

Apesar de não cobrar pelo trabalho, o músico carrega sempre uma cestinha para quem quiser dar uma contribuição. Chega a ganhar de 80 a 100 reais por dia, quando toca na parte da manhã e da tarde. “Um dia estava arrumando as coisas para ir para casa e vi que tinham deixado uma nota de 20 reais na cestinha. A pessoa que deu nem se pronunciou. Foi a maior nota que já recebi”, diz sorrindo. Ao ser questionado sobre o valor para tocar em outros lugares, o músico tem a resposta na ponta da língua. “O seu coração que vai dizer a oferta”.

Talvez o fato de não querer fazer da música uma obrigação ajude Fabrício a manter o astral nas, pelo menos, três horas que fica no metrô. Ele senta e toca algumas melodias para esquentar. Uns e outros param e observam. Quando ninguém bate palmas, trata logo de aplaudir sozinho. Não liga. O metrô chega e uma multidão passa por ele. É aí que faz o show. “Com vocês a nona de Beethoven”, anuncia. “Um minuto de atenção. Essa é para o casal que está passando aqui: Titanic”, brinca. Grandes nomes como Chico Buarque e Cartola também fazem parte do repertório. “Agora vou cantar uma do Chico. Você conhece Carolina?”, pergunta a uma moça, sem obter resposta.

Por outro lado, entrevistas, fotografias e convites para tocar em eventos surgem pelas andanças do músico. “Uma vez, a chefe de gabinete do governador Arruda me chamou para tocar na beira da piscina, no aniversário da filha dele. E eu fui”, conta orgulhoso. As meninas que trabalham no posto do Na Hora também gostam do saxofonista. “É uma forma de descontrair as pessoas que estão passando por lá”, diz Maria Verônica Macena, que trabalha na empresa há sete meses. “Quando aqui está vazio e identificamos uma música que gostamos, juntamos no balcão para cantar”, conta Josiene Sousa.

Seu Antônio, que vende produtos de beleza em um espaço de frente para o saxofonista, gosta do jeito de Fabrício. “Ele é muito simpático e toca umas musiquinhas antigas boas”, diz. Mas em um ambiente como a rodoviária e o metrô é difícil agradar a todos. “Com o barulho da rodoviária, cliente e o instrumento dele, fica desagradável trabalhar”, reclama a vendedora de roupas Daniele Gonçalves, de 21 anos. O vendedor da loja vizinha de Daniele também critica. “Ele tem um instrumento muito bonito, mas tem de explorar mais para não tornar enjoativo”, alerta Arthur Soares.

Gostando ou não do som, uma questão intriga todas as partes: em que lugar aprendeu a tocar um instrumento tão difícil como o saxofone? Fabrício afirma ter aprendido sozinho. Só de ouvir. “Escuto as músicas e passo para o instrumento”. E não é apenas saxofone que sabe tocar. “Já toquei clarineta e gaita de boca. Tenho mais facilidade com instrumento de sopro”. Sem data fixa, nem horário certo, o piauiense se dedica a mostrar o que sabe sobre a música, com o som do saxofone. “Ela é a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma. É isso que sinto quando toco”, explica.



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