terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lapidando Histórias

Histórias imaginadas

A matéria "P.S. Eu te amo" me fez lembrar o quanto gosto de ler as dedicatórias dos livros. Como a livreira Nice Motta afirmou na entrevista: "O livro não é só a história que o autor conta, mas a história que o antigo dono também conta". Chorei com a dedicatória apaixonada de Sylvio Massa “De tudo que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir”. Morri de rir com a de Edinho: “Esta porra foi concebida pelo maior amigo putinho, mas com carinho. Uma beijunda e um abraçaralho deste que te escreve, com muito amor". 

Cada dedicatória tem o toque especial, o mistério, um pedaço da história de alguém que deixou gravado um momento para se recordar. Uma história que tem o início e o fim construído por todos aqueles que encontraram aquelas palavras.


Não tenho muitos livros com dedicatórias. Mas os que tenho ou que passaram por minhas mãos, guardo com carinho, como se tivessem sido escritas para mim. Algumas, tenho certeza de que foram. 



História da vida privada-do Império Romano ao ano mil 

Se cada palavra desta coleção representasse um
pouquinho do nosso amor, elas não seriam nem uma
pequena parte de todo êle.



Jornalistas intelectuais no Brasil

Obrigado pelo seu preciso tempo e pelo apoio nesse momento.
Bom poder contar com você. Espero que as histórias dos jornalistas
intelectuais te façam amar o jornalismo como eu aprendi a amar.
Um beijão.

Os segredos das redações

Na certeza de que posso ainda dar
uma força para seu talento de jornalista. Bjs
.



Mauá - empresário do Império 

Uma lembrança que relata a história de um grande empresário 

para um amigo que se mostra cada vez
mais um grande empreendedor. 

Muito sucesso neste novo momento! Abraços.

Roberto Marinho 

Que a biografia deste líder da comunicação possa
lhe inspirar em seu caminho de crescimento e sucesso.
É o que te desejo de coração. 







Cartas do Brasil 



na certeza de que a melhor vingança 
é rir de tudo isso. Um beijo.



1984 

Esse é meu livro predileto, não sei se você vai gostar, mas
enquanto você possuí-lo você vai ter um pedaço
de mim e dos meus
pensamentos.



Meu querido Vlado 

A explicação é que não tem
explicação. Simples assim.
Beijo.

Tem alguma coisa babando embaixo da cama 

Find the Joy in
your life

P.S. Eu te amo

RIO - Era uma noite de terça-feira insuspeita em Copacabana. No fim daquele dia, 23 de outubro, um grupo de frequentadores do sebo Baratos da Ribeiro faria exatamente o que faz há cinco anos: se espremeria entre as prateleiras abarrotadas da livraria para mais um encontro do Clube da Leitura, evento quinzenal em que leem trechos de livros e trocam impressões sobre contos próprios. Quando chegou a sua vez na roda, o dono do sebo e fundador do clube, Maurício Gouveia, tirou da gaveta um livro que guardava há dez anos escondido no acervo: um exemplar em italiano de “Nove contos”, do escritor americano J.D. Salinger.


Não tinha coragem de vendê-lo. Com as bordas amareladas e as páginas carcomidas, aquele “Nove racconti” guardava uma dedicatória em português na página de rosto que Maurício considerava mais bonita do que todo o livro do autor do clássico “O apanhador no campo de centeio”. Um homem comum — que poderia ser um médico, um vendedor de sapatos ou um trapezista de circo — declarava seu amor a uma mulher, em Milão, em 26 de dezembro de 1966. Maurício leu a dedicatória enorme, que começava com a frase “De tudo que vem de você, permanece em mim uma vontade de sorrir” e se encerrava com a oração “a vida é um contínuo chegar de esperanças”. Ao final, subiu o tom para ler o nome do santo: Sylvio Massa de Campos.

Foi quando um dos frequentadores do clube soltou um “opa!”. O jornalista George Patiño conhecia a família Massa, da qual Sylvio era o patriarca. Ele não vendia sapatos, trabalhava em circo ou morava em Milão: o matemático e escritor Sylvio Massa de Campos estava vivo, trabalhara a vida toda na Petrobras, tinha 74 anos e morava logo ali, no Leblon.

— Tem certeza? — perguntou Maurício.

— Trago ele aqui no próximo encontro — prometeu George.

Feito. No dia 6 de novembro, um senhor de cabelos brancos, sorriso fácil e porte altivo entrou no sebo acompanhado de duas filhas e três netos. Emocionado, recebeu das mãos de Maurício o livro perdido. Releu a dedicatória em voz alta, com pausas longas entre uma frase e outra, o que só aumentava o suspense na livraria, entrecortado pelo ruído dos netos inquietos. Depois de ser longamente aplaudido, contou aos novos colegas a história por trás daquela mensagem.

Em 1966, ele fazia mestrado em Matemática em Milão com uma bolsa do governo brasileiro. Lá, conheceu uma italianinha de nome Febea, que tinha concluído os estudos em Literatura em Londres, e acabava de retonar à Itália. Quando ela comentou que conhecia José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto, e que adoraria aprender português para ler Guimarães Rosa, Sylvio se apaixonou na hora: apesar de trabalhar com algoritmos, era na literatura que descansava seus teoremas. Prestes a terminar a pós-graduação, no entanto, logo voltaria ao Brasil. O amor foi construído à distância.

— Nosso namoro durou um ano, 136 cartas, nove livros, dois telegramas e um telefonema — contou Sylvio, para suspiro coletivo da plateia, e espanto das filhas, que não conheciam todos aqueles números. — Naquele tempo, dar um telefonema era uma fortuna. Esta dedicatória escrevi no dia do meu aniversário, já doido por ela. Eu nem sei como perdi o livro, acho que foi numa mudança nos anos 80.

Um ano depois, Febea veio morar no Brasil, e Sylvio montou um apartamento no Méier para ela. Tiveram duas filhas, Isabella e Gabriella — que a essa altura se debulhavam em lágrimas na livraria —, e viveram felizes para sempre. Até que um câncer levou Febea aos 41 anos de idade. Sylvio nunca mais se casou.


— A arte de viver é a arte de acreditar em milagres, disse o poeta italiano Cesare Pavese, e se hoje eu estou aqui é porque ele está certo. Febea foi a pessoa que eu amei mais profundamente em toda a minha vida. E ela está presente aqui, nessas cinco pessoas que fizemos, nossas duas filhas e três netos. Esse é o milagre — declarou Sylvio, lembrando, ao final, uma frase que ouvira do neto quando ele tinha 4 anos, e que levava como mantra de vida: “Vovô, nada é grave.”

Na rotina dos livreiros de sebos, dedicatórias anônimas aparecem com muita frequência. Mais até do que os exemplares usados de “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares, um campeão nacional em rotatividade. Os livros já chegam com cantadas, desculpas, felicitações, despedidas, malfazejos.

— O livro usado traz uma história que muitas vezes é mais interessante do que aquela que ele conta. Aqui na Baratos nós tínhamos uma caixinha para guardar os objetos encontrados dentro das páginas, como cheques, receitas médicas, ingressos de cinema, flores, contas, fotos... Daria uma exposição — comenta Maurício, que também guardou por algum tempo dois livros trocados entre amigos, com dedicatórias irônicas em que tentavam dissuadir o outro das suas convicções políticas (um era de direita; o outro, um anarquista convicto).
Mas acabou vendendo os exemplares. É da natureza da profissão: o livreiro não é um colecionador, mas um comerciante.

— Todo sebo começa do mesmo jeito, quando a pessoa precisa vender os próprios livros. Esta é a diferença de um livreiro para um colecionador. Só o livreiro tem coragem de se desapegar. Ele sabe que os livros que são de verdade voltam. Já encontrei livro que tinha sido meu em acervo que fui comprar. Todo lote sempre está cercado de histórias, seja uma morte, uma herança, uma mudança repentina de casa, de estilo de vida — explica Marcelo Lachter, que começou a vender livros usados há 14 anos e hoje é dono da Gracilianos do Ramo, um sebo virtual.

Mesmo defendendo o caráter comercial do ofício, Marcelo tem um “Nove racconti” para chamar de seu: há seis anos, guarda na gaveta um exemplar de “Recortes”, livro de ensaios de Antonio Candido publicado em 1993, na esperança de devolvê-lo à família do antigo dono. A história teve início em 2006, quando Marcelo recebeu o telefonema de uma moradora da Barra da Tijuca, interessada em se desfazer da biblioteca do marido, morto meses antes. Como era uma coleção especializada em Humanas, área com muita procura, Marcelo arrematou o lote todo. Antes de fechar negócio, no entanto, a viúva fez um pedido: caso ele encontrasse ali perdido um exemplar com uma dedicatória do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan ao marido, que devolvesse o título. Ambos tinham sido amigos de infância, perderam o contato e retomaram pouco antes de Malan tornar-se o braço forte de Fernando Henrique Cardoso.

Marcelo encontrou o livro e a dedicatória: “Meu melhor, apesar de distante, amigo. Espero que você goste deste ‘Recortes’, deste gênio literário e excepcional figura humana que é Antonio Candido. Precisamos ler coisas como estas para que não esqueçamos nunca de que há muito mais coisas na vida e no mundo que o nosso trabalho e nossas pequenas procupações cotidianas. Feliz aniversário, um abraço deste amigo e saudoso, Pedro Malan.” Mas perdeu a viúva de vista.

Outra história que aguarda um desfecho parecido é a de Nice Motta, de 46 anos, livreira há dez. Assim como Marcelo, Nice desistiu de uma loja física para se dedicar às vendas pela internet, suporte que salvou da falência milhares de livreiros no país, através do sucesso de sites como o Estante Virtual. Dona da Bola de Gude Livros, um acervo que ocupa 98% do seu apartamento na Vila da Penha, Nice é ainda mais romântica do que os colegas livreiros: ela embarga a voz cada vez que se depara com um fragmento de história perdida nos livros que compra e vende. É mais metódica também. Os objetos encontrados nos livros são reunidos numa caixa que ela guarda como um pequeno museu alheio.

Em meio aos objetos, há fotos, desenhos infantis, ingressos de espetáculos e até um passaporte para o Museu do Holocausto, na Alemanha. Há uma carta bem alegre: “Esta porra foi concebida pelo maior amigo putinho, mas com carinho. Uma beijunda e um abraçaralho deste que te escreve, com muito amor, 27/10/86, Edinho”); e uma muito triste (“À amiga Katia: cursei faculdade e não terminei, namorei cinco anos e não me casei, escrevi um livro e não publiquei. Minha vida segue em frente, sempre pela metade. Wagner, 73.”

Mas a pepita é um livro encontrado por ela em 2007: “O poder do jovem”, best-seller de autoajuda do parapsicólogo Lauro Trevisan. O exemplar tem duas dedicatórias. Uma escrita nas costas da primeira página: “Bruno, eu vi este livro e achei que você ia gostar. É coisa de mãe, fica tentando adivinhar o gosto do filho, eu queria te dar o mundo, mas é melhor você descobrir com a ajuda deste livro o seu mundo inteiro. Estou sempre aqui, filho, conte comigo, sua mãe, beijos, te amo, te amo e te amo, Rio, 15/03/02.”
Seria só uma mensagem emocionada, não houvesse a segunda, na página seguinte: “Rafael, este livro foi o último presente que eu dei para o Bruno, ele não chegou a ler. Como eu sei que ele te adorava, gostaria de dar a você, leia por ele e por você, com carinho, Clara, 15/03/06.”

— É muito emocionante pensar no amor desta mãe, que o filho morreu, e que ela teve o carinho de dividir o amor com o amigo do filho. Eu sou mãe, e sei como é inconcebível pensar na perda de um filho. Se ao menos eu pudesse repará-la em relação à perda do livro... — diz Nice, sonhando com um acaso que a coloque no caminho daquela mãe. — Trabalhar com livros é apaixonante. O livro não é só a história que o autor conta, mas a história que o antigo dono também conta.

No início deste ano, Nice encontrou outro volume de “O poder do jovem”, que ela ainda está pensando se vai para a caixinha ou não. A mensagem na folha de rosto diz o seguinte: “Para o meu querido neto Fábio conservar à sua cabeceira, e enfrentar a caminhada da vida sempre forte! E vencedor! 05/88, vovó Abigail Araújo.” Por enquanto, vai ficar lá.

* publicada no site globo.com

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornal de Brasília

Desinformação que mata
Pesquisa mostra que 85% das mulheres desconhecem fatores de risco
Joyce Gomes*
joyce.gomes @clicabrasilia.com.
br

Para algumas mulheres o medo tem motivos estéticos. Vem da angústia de perder uma parte do corpo, de ser mutilada. Só de imaginar é difícil, e muitas preferem adiar o exame e fingir que está tudo bem. Para outras, a dor é maior, de perder os sonhos, de achar que tudo o que fez até aquele instante contribuiu para levá-la a um único destino: a morte. Se ao menos tivessem tido coragem, tomado a iniciativa ou dedicado uma pequena parte do tempo haveria chances de manter o corpo da mesma forma e saudável.

Esses são alguns dos sentimentos de muitas das mulheres diagnosticadas com câncer de mama. Para evitar surpresas desagradáveis e diagnósticos tardios, há exames que podem detectar a doença logo noinício, o que aumenta as chances de tratamento precoce e de cura.


A mamografia é um deles e a ultrassonografia é outro. Porém, muitas mulheres ainda são desinformadas sobre o assunto e outras têm informações distorcidas. Por isso, o câncer de mama que poderia ser curado em 15 dias, aumenta as estatísticas de morte para 12 mil, em quase 50 mil diagnósticos anuais, só no Brasil.

Esses dados fazem parte da pesquisa Câncer de Mama – experiências e percepções , realizada pela Pfizer, que tem o câncer como um dos principais focos de pesquisa. Foram estudadas 320 mulheres de cinco capitais brasileiras, sendo 200 com câncer de mama e 120 sem a doença.

O resultado chocou o oncologista Sérgio Simon, do Hospital Albert Einstein de São Paulo, que coordenou o projeto. De acordo com a pesquisa, 85% das entrevistadas acreditavam estar bem informadas em relação à doença. Poucas, no entanto, acertaram os fatores que aumentam o risco do câncer de mama. "É assustador. O que elas consideram como fator de risco está tudo errado. Tudo do avesso", lamenta o médico.

A informação que falta, muitas vezes, é o que faz o tumor aumentar a cada dia e as chances de cura serem reduzidas. Quanto mais cedo o problema é diagnosticado, mais fácil e rápido é o tratamento. Mágoas, depressões, estresse nada tem a ver com a doença. O cigarro também não faz parte do conjunto de fatores que desencadeiam o câncer de mama, porém, foram as causas mais citadas. O que realmente é considerado relevante como fator de risco é a variação de hormônio, principalmente de estrógeno.


"Por isso, menstruação precoce, menopausa tardia, pouca amamentação e reposição hormonal influenciam no desenvolvimento do câncer de mama. Quanto menos a mulher menstrua, menores são os riscos", alerta Simon. A obesidade é outro fator desencadeante da doença. "O estrógeno é à base de gordura, por isso, quanto mais gorda a mulher é, mais hormônio tem", esclarece o médico.

Propensão genética
Além dos casos de variação hormonal há, também, mulheres com tendência a desenvolver o câncer de mama. O oncologista Sérgio Simon explica que é o caso das mutações genéticas. Apesar do percentual desses casos ser de apenas 5% das mulheres com câncer de mama, o cuidado tem de ser redobrado. Nesses casos, o histórico familiar é o que aponta o quão cedo a mulher tem de se preocupar com a doença.

Os exames preventivos de diagnóstico, geralmente recomendados a partir dos 40 anos, passam a ser solicitados já aos 25. "Podem ocorrer mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, causando o câncer de mama ou de ovário. Mas é um caso muito raro", garante o especialista.

Mesmo que a hereditariedade não esteja a favor, a mulher não está condenada a ter a doença. O câncer de mama, quando prevenido, tem até 80% de chances de cura. "O problema é que a pessoa tem o pedido, mas não faz o exame. E é a mamografia que pode salvar", defende Simon.

Foi pedida a mamografia a 78% das mulheres sadias que participaram da pesquisa. Apenas 29% fizeram. Em relação à ultrassonografia do seio, somente um terço das mulheres atenderam ao pedido.

No entanto, 81% das mulheres pesquisadas, realizaram o autoexame. "Isso é algo importante, mas não é nada comparado com a mamografia e a ultrassonografia. Por isso, não basta educar para fazer os exames corretos, tem de lembrar as mulheres, frequentemente, de fazer os exames", reforça o oncologista.

Lei garante o exame
A mamografia tem tamanha relevância que, no ano passado, foi sancionada uma lei federal que garante a realização do exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS) às mulheres a partir de 40 anos. A Lei 11.664 entrou em vigor no dia 29 de abril, e agora, a mulher pode exigir esse direito de médicos e hospitais.

Porém, enfrentará outro problema caso o câncer seja diagnosticado. Terá de marcar nova consulta para ser encaminhada ao tratamento. E, no serviço público, é grande a demora para nova consulta. O tempo não ajuda quem tem um tumor que cresce a cada dia. "Além dos atrasos frequentes nas consultas, a paciente ainda leva desvantagem no tipo de tratamento. A quimioterapia do hospital público é mais barata e menos eficaz. A chance de sobrevida é bem menor, mesmo se o câncer estiver no mesmo estágio", lamenta Simon.


Além disso, um tratamento à base de anticorpos, mais eficaz, custa entre R$ 12 mil e R$ 14 mil por mulher. Para o médico, a lei libera a mamografia, mas não resolve o problema do câncer de mama para quem tem baixa renda. "O processo tem de ser todo resolvido desde a mamografia até o fim do tratamento", assegura o oncologista.

Ainda há preconceito
O problema enfrentado pelas mulheres não se limita a exames e consultas, medos e angústias ao se ver doente e ter de correr contra o tempo para se tratar. Elas têm de lutar, ainda, contra o preconceito. No estudo realizado pela Pfizer, apenas 24% das mulheres pesquisadas afirmaram que o tratamento afetou a vida profissional. A maioria teve o apoio de chefes e colegas de trabalho. Porém, o quadro muda quando o assunto é inserção no mercado de trabalho.

"Depois de um ano de tratamento não sentia mais que tinha câncer. Me sentia curada. Passei em duas empresas, mas na hora do exame médico fui reprovada. A autoestima foi pro pé ao me deparar com o preconceito. Não falam que não aceitam você por ter câncer, nem podem. Mas a gente percebe, pois tenho três formações e um currículo fantástico". O depoimento é de uma mulher que não teve medo da doença.

Ao ter o câncer de mama diagnosticado, Valéria Baracat, 48 anos, só pensava que a vida não podia parar.Ela trabalhou no dia após a cirurgia de retirada da mama, escrevendo e telefonando com a mão que estava com os movimentos livres. Em julho, Valéria completa cinco anos de luta contra a doença. Ela conta que pretendia mudar de trabalho, mas não conseguiu quem a aceitasse. Veio, daí, a ideia de transmitir o que aprendeu para mulheres com histórias parecidas. A arte de viver bem é o site ao qual ela dedica 15 horas do dia para se solidarizar e informar sobre a doença. Para quem ainda acha que o câncer afeta o desempenho no trabalho, Valéria deixa o recado: "O câncer afetou minha mama, não minha cabeça".


Saiba mais:
A maioria das entrevistadas acredita que o estresse é um dos fatores de risco para o câncer de mama, sendo 87% de portadoras e 61% de sadias

Entre as sadias, 43% acreditam que poderiam desenvolver a doença e 47% dizem que a causa do tumor seria emocional

Elas apontaram como causas principais para o desenvolvimento da doença: hereditariedade e predisposição (32%); emoções contidas, mágoas, entre outros (28%) e estresse (24%)

A repórter viajou a convite da Pfizer


* matéria publicada no dia 29/5/2009

Foto: Divulgação/ Campanha contra câncer de mama

ClicaBrasília

Ana Botafogo faz apresentação em Brasília de espetáculo inédito
Por Joyce Gomes, da redação do Clicabrasilia.com.br*
Foto: divulgação


Dois meses de trabalho. A rotina é de ensaio e aquecimento com uma hora de intervalo para descanso e mais uma para fazer a maquiagem, se arrumar e preparar para a dança. Pela primeira vez, a remontagem de Suíte Floral-As quatro estações, é interpretada. O palco escolhido foi de Brasília. Antes da apresentação, a bailarina Ana Botafogo faz o sinal da cruz e bate três vezes na madeira. Reza para que tudo dê certo, porque, nas palavras da dançarina, cada dia é um dia e cada espetáculo tem gosto de estréia.

A aflição do início acaba quando está em cena. Os gestos suaves da primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro interpretam a emoção da música, como bem planejou o coreógrafo e diretor Luis Arrieta. Para completar, a pianista Lilian Barreto toca ao vivo, firmando a parceria de 16 anos com a bailarina. "Nós tivemos a oportunidade de trabalhar lado a lado, na mesma sala, e passamos a ter ideias e pensar arte juntas. Fizemos apresentações e vimos que as pessoas gostavam muito desse formato de música e dança", explica Lilian.

O espetáculo leva ao público o sentimento das estações do ano, como se cada uma delas fosse momentos da vida. "Tem dia que você pode ter na sua própria vida a primavera, o verão, o outono e o inverno, se você estiver desanimado. Mas logo em seguida, a primavera vem de novo. É exatamente disso que as músicas falam", argumenta Ana Botafogo ao analisar a metáfora do espetáculo. A dança é acompanhada pelas estações de compositores consagrados como Vivaldi, Piazzolla, Tom Jobim e Villa-Lobos. Além de Lilian Barreto, mais três músicos compõem a apresentação de uma hora ininterrupta. Ana Botafogo dança com o bailarino Joseny Coutinho, colega do Theatro Municipal.

O espetáculo movimentou uma equipe de doze pessoas só do Rio de Janeiro. Segundo a produtora Iza Gilz, foram necessários dois dias para a montagem, sem contar com os ajustes finais de luz e som na hora do ensaio. A produção está em cartaz desde quinta-feira (23) no Espaço Brasil Telecom e os ingressos do fim de semana já se esgotaram antes da estréia. Suíte Floral é tão esperada pelo público quanto foi para a inspiradora do espetáculo de Luis Arrieto."Curti muito a concepção da Suíte Floral. Não posso negar que adoro os grandes clássicos, mas esse é um espetáculo meu, coreografado especialmente para mim. É também um filho querido", garante Ana Botafogo.

Além de Suíte Floral, a parceria entre as artistas Ana Botafogo e Lilian Barreto já havia rendido dois espetáculos. A ideia era sair do clássico como Quebra-Nozes e Giselle e buscar uma integração para que músicos e bailarinos estivessem juntos no palco trocando energia e invertendo os papéis. É o caso da primeira parceria, Concertos Coreografados, ou Ana Botafogo in concert. "Música ao vivo tem aquela emoção do artista no momento, nunca é exatamente igual. A gravada é exatamente a mesma coisa, você acaba automatizando", afirma Ana Botafogo ao justificar a escolha. "No nosso trabalho, tanto o bailarino quanto o músico tem de estar em completa sintonia. Um depende do outro, do momento do outro. Assim, público se encanta mais", garante. O espetáculo Três Momentos do Amor seguiu o mesmo formato. Foi apresentado por sete anos e teve o início de turnê também em Brasília.

Trabalhar junto, porém nem sempre é uma tarefa fácil. Os músicos, em geral, costumam se preparar em casa, estudando sozinhos. Somente depois se reúnem para fazer, no máximo, três ensaios. Para os bailarinos, a situação parece ser mais complexa. Eles precisam estar juntos para aprenderem o movimento. O processo é diferente, mas no final, todos têm de trabalhar com união, integração e entendimento. Isso acontece no Suíte Floral. "Esse espetáculo é bacana porque são quatro músicos e dois bailarinos. É como um jogo: a bola vai de um lado para o outro, mas o interesse é de fazer gol", interpreta Lilian Barreto.

Trajetória
Com seis anos, Ana Botafogo foi levada pela mãe para as aulas de dança, em uma escola próxima à casa em que morava no Rio de Janeiro. "Eu me encantei com o balé desde o início", conta Ana Botafogo.

Com o apoio da família, fez o primeiro trabalho na França. Ao voltar para o Brasil revelou um desejo aos pais, que sempre apoiaram a filha. "Meu sonho era ir para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro", lembra Ana Botafogo. Mal sabia que o balé faria dela a primeira bailarina do Theatro, em 1981.

"A Ana representa a dança brasileira, ontem, hoje e sempre. Vê-la no palco é um incentivo para todos nós, porque ela passa muita energia, carisma, talento e, sobretudo, a versatilidade", afirma Lilian Barreto. "É uma bailarina rara que pode dançar Quebra-Nozes ou uma música contemporânea, como no nosso espetáculo, com o mesmo talento. Em Suíte Floral ela dança naponta e dança descalça. Você vê a mesma intensidade, a mesma energia, a mesma arte", elogia.

Com 31 anos de carreira, a bailarina conhecida no mundo inteiro, revela que está perto o momento de pendurar as sapatilhas. "Agora estou na maturidade da minha carreira. Mas eu quero parar assim, enquanto eu estiver dançando bem. Ainda não tem nada previsto, mas está próximo", declara Ana Botafogo.


* publicada em 24/04/2009 - 14:54:55

sábado, 20 de junho de 2009

Fenaj

Oito contra oitenta mil
Oito contra 180 milhões
*

Perplexos e indignados os jornalistas brasileiros enfrentam neste momento uma das piores situações da história da profissão no Brasil. Contrariando todas as expectativas da categoria e a opinião de grande parte da sociedade, o Supremo Tribunal Federal (STF), por maioria, acatou, nesta quarta-feira (17/6), o voto do ministro Gilmar Mendes considerando inconstitucional o inciso V do art. 4º do Decreto-Lei 972 de 1969 que fixava a exigência do diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista. Outros sete ministros acompanharam o voto do relator. Perde a categoria dos jornalistas e perdem também os 180 milhões de brasileiros, que não podem prescindir da informação de qualidade para o exercício de sua cidadania.

A decisão é um retrocesso institucional e acentua um vergonhoso atrelamento das recentes posições do STF aos interesses da elite brasileira e, neste caso em especial, ao baronato que controla os meios de comunicação do país. A sanha desregulamentadora que tem pontuado as manifestações dos ministros da mais alta corte do país consolida o cenário dos sonhos das empresas de mídia e ameaça as bases da própria democracia brasileira. Ao contrário do que querem fazer crer, a desregulamentação total das atividades de imprensa no Brasil não atende aos princípios da liberdade de expressão e de imprensa consignados na Constituição brasileira nem aos interesses da sociedade. A desregulamentação da profissão de jornalista é, na verdade, uma ameaça a esses princípios e, inequivocamente, uma ameaça a outras profissões regulamentadas que poderão passar pelo mesmo ataque, agora perpetrado contra os jornalistas.

O voto do STF humilha a memória de gerações de jornalistas profissionais e, irresponsavelmente, revoga uma conquista social de mais de 40 anos. Em sua lamentável manifestação, Gilmar Mendes defende transferir exclusivamente aos patrões a condição de definir critérios de acesso à profissão. Desrespeitosamente, joga por terra a tradição ocidental que consolidou a formação de profissionais que prestam relevantes serviços sociais por meio de um curso superior.

O presidente-relator e os demais magistrados, de modo geral, demonstraram não ter conhecimento suficiente para tomar decisão de tamanha repercussão social. Sem saber o que é o jornalismo, mais uma vez – como fizeram no julgamento da Lei de Imprensa – confundiram liberdade de expressão e de imprensa e direito de opinião com o exercício de uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética.

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), como entidade de representação máxima dos jornalistas brasileiros, esclarece que a decisão do STF eliminou a exigência do diploma para o acesso à profissão, mas que permanecem inalterados os demais dispositivos da regulamentação da profissão. Dessa forma, o registro profissional continua sendo condição de acesso à profissão e o Ministério do Trabalho e Emprego deve seguir registrando os jornalistas, diplomados ou não.

Igualmente, a FENAJ esclarece que a profissão de jornalista está consolidada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. No caso brasileiro, a categoria mantém suas conquistas históricas, como os pisos salariais, a jornada diferenciada de cinco horas e a criação dos cursos superiores de jornalismo. Em que pese o duro golpe na educação superior, os cursos de jornalismo vão seguir capacitando os futuros profissionais e, certamente, continuarão a ser a porta de entrada na profissão para a grande maioria dos jovens brasileiros que sonham em se tornar jornalistas.

A FENAJ assume o compromisso público de seguir lutando em defesa da regulamentação da profissão e da qualificação do jornalismo. Assegura a todos os jornalistas em atuação no Brasil que tomará todas as medidas possíveis para rechaçar os ataques e iniciativas de desqualificar a profissão, impor a precarização das relações de trabalho e ampliar o arrocho salarial existente.

Neste momento crítico, a FENAJ conclama toda a categoria a mobilizar-se em torno dos Sindicatos. Somente a nossa organização coletiva, dentro das entidades sindicais, pode fazer frente a ofensiva do patronato e seus aliados contra o jornalismo e os jornalistas. Também conclama os demais segmentos profissionais e toda a sociedade, em especial os estudantes de jornalismo, que intensifiquem o apoio e a participação na luta pela valorização da profissão de jornalista.

Somos 80 mil jornalistas brasileiros. Milhares de profissionais que, somente através da formação, da regulamentação, da valorização do seu trabalho, conseguirão garantir dignidade para sua profissão e qualidade, interesse público, responsabilidade e ética para o jornalismo.

Para o bem do jornalismo e da democracia, vamos reagir a mais este golpe!


* 18 de junho de 2009, Diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ

Lapidando histórias...

Angústia pela Vitória
A batalha de uma adolescente de Arapoanga para reconquistar a filha
por Joyce Gomes
Fotos: Joyce Gomes

O quarto da criança foi cuidadosamente montado. As bonecas e os bichos de pelúcia enfeitam a cama coberta pelo lençol estampado com os personagens Disney. Os balões rosa e brancos pendurados no teto não escondem a festa da chegada do grande dia. A dona do cantinho preparado recebeu o nome de Maria Vitória, o bebê do retrato em cima do criado mudo. A espera não foi de apenas nove meses. A briga da mãe Gislene Antunes, de 18 anos, para ter a filha demorou quase cinco anos na Justiça. Agora que ganhou a guarda, a adolescente passa por um novo drama: a luta para encontrar a menina.

Desde os seis meses de idade Vitória mora com um casal de conhecidos do pai de Gislene. Violento, obrigou a adolescente a assinar a autorização de adoção da menina. Desde o último julgamento, o casal fugiu com a criança e a jovem não consegue ter a filha que deveria morar com ela por direito.

As dificuldades de Gislene, no entanto, não começam com a perda do bebê. Com apenas 11 anos, a adolescente foi vítima de violência sexual cometida pelo padrasto. Do ato criminoso, nasceu Vitória. Na mesma época, a avó da recém-nascida tinha acabado de ter um filho, que viria a ser meio irmão, meio tio de Vitória, fruto do relacionamento da mãe com o mesmo homem. Com a confirmação do caso de estupro e assim que saiu do hospital onde a neném nasceu, Gislene teve a guarda dela e da filha passada para o pai. "Ele pegou a minha guarda sem eu saber. Não queria ir de jeito nenhum, porque ele era agressivo comigo", conta a garota. Legalmente, a guarda não poderia ter sido executada. A advogada e professora de Direito do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) Andrea Vasquez, que cuida do caso, afirma que era preciso ter o consentimento de Gislene. "A atitude não foi pensada. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê que a criança tem de ser ouvida antes que se tome qualquer decisão", explica.

Durante a permanência com o pai, a adolescente afirma ter revivido cenas de crueldade. Abuso sexual, marcas de espancamento, maus tratos e xingamentos faziam parte da rotina da jovem mantida em cárcere privado. "Fiquei trancada no quarto com cadeado. Só comia e bebia água quando ele queria". O bebê também foi maltratado. "Minha filha passava fome. Ele colocou pimenta no meu seio para eu não dar de mamar para ela", relembra. Durante seis meses a menina diz que pôde ter contato com a filha, mas logo o pai deu um jeito de se livrar da criança. "Fiquei uma semana sem ver minha filha. Para me fazer chantagem meu pai falava que tinha levado ela para o Conselho Tutelar". Depois o pai voltou com a criança e Gislene recebeu a notícia de que a menina estava sendo cuidada por um casal que tinha um açougue na vizinhança.

Além dos atos de violência que teriam sido cometidos pelo pai, a adolescente conta que ele impôs que Vitória fosse doada para o casal. Vendo que o bebê estava mais saudável, Gislene aceitou que eles cuidassem temporariamente da filha. No entanto, teve de assinar o pedido de adoção, segundo ela, obrigada pelo pai, e dizer que não tinha condições de cuidar do bebê. "A Vara da Infância aceitou adoção sem qualquer questionamento. Não procuraram saber se realmente não tinham recursos ou sequer perguntaram sobre a gravidez precoce da menina", relata a advogada Andrea Vasquez.

Mesmo com a perda da filha, Gislene continuou a ser agredida e humilhada. A adolescente pediu ajuda para a mãe, vizinhos, polícia e Conselho Tutelar. "Quando os assistentes sociais foram ver o que estava acontecendo, meu pai me dava banho e me vestia com roupas compridas para esconder as marcas de agressão. O quarto que eu estava virava o quarto da bagunça e o arrumado era apresentado como meu". Assim, como a situação era aparentemente normal, nada acontecia. A cada visita feita, o castigo dobrava. "Ele chegou a lavar meu rosto com a água do vaso sanitário quando o pessoal do Conselho saiu", lembra a adolescente. "Era covarde, frio. Não amava nem a ele mesmo", recorda.

Presa no quarto, Gislene se comparava a um pássaro. "Ficava me imaginando como uma ave presa numa gaiola que na primeira oportunidade voaria para longe daquele lugar". Conseguiu, porém, falar com uma das vizinhas que lhe passou um celular aproveitando que a janela do quarto tinha sido esquecida aberta. Pediu socorro novamente ao Conselho Tutelar. "Tive que falar bem baixinho no telefone, com medo do meu pai me escutar". No outro dia, os assistentes apareceram sem que nenhum cenário fosse preparado. A menina aproveitou um descuido do pai e correu até a sacada para ser vista. "Eles me olharam assustados e eu disse que se não me tirassem de lá iria pular. Se era para morrer, que fosse logo e não em um processo lento como estava sendo", lembra com angústia.

Depois de tudo o que aconteceu, a menina foi levada à delegacia de Planaltina e em seguida ao Instituto Médico Legal para fazer um exame que comprovasse as supostas agressões. Conclusão do laudo: "Lesões contusas (hematomas) com requintes de crueldade". Gislene foi encaminhada para o Centro de Abrigamento e Reencontro (Cear), em Taguatinga. Após quase cinco meses, a adolescente voltou a morar com a mãe.

Luta na Justiça
O sofrimento que Gislene passou não fez a menina esquecer a filha que foi obrigada a dar. A luta foi diária para recuperar o direito de ser mãe. A cada audiência pedida, a guarda era negada. Mas a esperança nunca deixou de existir. Conseguiu visitar a filha oito vezes no período de novembro de 2003 até fevereiro de 2004, assistida por psicólogos. Quando o prazo acabou, recusaram a renovação.

Em junho de 2006, a garota passou a receber ajuda psicológica do Centro de Referência, Pesquisa, Capacitação e Atenção Integral à Adolescência (Adolescentro), indicada pela Vara da Infância e Juventude. Com mais de um ano de atendimento, o Centro mandou à Justiça um relatório clínico pedindo que a guarda de Vitória fosse dada à Gislene para que os danos da separação não aumentassem com o decorrer do tempo: "(...) a concessão do efeito suspensivo à apelação se faz necessária ante o receio de dano irreparável ou de difícil reparação ao se efetivarem os efeitos da sentença proferida, não se permitindo o contato entre mãe e filha, sequer por meio de visitas", diz o relatório.

Foi informada, mais tarde, que o Adolescentro tinha uma parceria em um projeto de pesquisa entre as áreas de saúde e jurídica, com o Iesb. Foi atrás. A advogada Andrea Vasquez atendeu a jovem e passou a defendê-la judicialmente. "O Adolescentro foi um flash de luz na minha vida", relembra a adolescente. Os estagiários se sensibilizaram com o caso de Gislene. "Geralmente os alunos do oitavo e nono semestres que fazem o atendimento. No caso de Gislene, tivemos a ajuda de estudantes de outros semestres", conta a advogada.

A aluna Manuela Serejo, do nono semestre de Direito do Iesb, lembra da primeira vez que atendeu a adolescente. "Apesar da triste história de vida, a intenção de Gislene não era de vingança", pondera. "O maior medo dela era de que a filha achasse que não lutou para tê-la de volta". Com o empenho dos professores e estagiários de Direito, uma nova audiência foi feita no dia dois de abril de 2008. "Gislene ficou radiante quando a data do julgamento foi marcada", recorda Manuela. As cadeiras da platéia lotaram com os alunos que cuidaram do caso. A mãe de Vitória ficou mais nervosa ao ver quem era o desembargador. "Ele tinha negado meu pedido de visita à minha filha no Natal e no Ano Novo do ano passado", diz. Mas, dessa vez, a situação havia mudado.

O relator do processo, o desembargador Teófilo Rodrigues, demorou quase duas horas para descrever o caso de mais de 50 páginas. Ele podia apenas lido o resultado. Preferiu, no entanto, contar a história olhando para a jovem mãe. A adolescente não entendia bem o que queriam dizer. "Eu ganhei?", perguntava sem saber ao certo. O desembargador Arnoldo Camanho, também responsável por dar voto no julgamento, pediu desculpas pelo que a Justiça brasileira fez com a menina. Uma frase dita por ele marcou a decisão final: "Toda vez que veja a sua filha e toda vez que escute ou fale o nome dela, que é Vitória, lembre-se dessa conquista aqui no seio deste Tribunal de Justiça e que ela seja feliz ao lado da sua filha, espero, ao longo de muitos anos". A comoção tomou conta da platéia. "Gislene me deu um abraço chorando e falou que era o dia mais importante da vida dela", recorda Manuela, emocionada por ter participado do dia vitorioso da menina.

A espera
Após o sucesso do julgamento, Gislene foi logo preparando o quarto da filha. "Queria tudo perfeito para quando voltasse", conta. Na porta do local, a frase de boas vindas escrita pela jovem mãe: "Ontem você fez parte de apenas um sonho. Hoje, você faz parte da minha realidade". Mesmo assim a mãe sabe que o encontro com a filha não será harmonioso. "A Vitória cresceu achando que tinha uma bruxa na Vara da Infância querendo pegá-la", lamenta Gislene. "Sei que nos primeiros dias vai ser muito difícil. Mas, com certeza, o que não vai faltar é amor", afirma.

A procura pela Vitória continua mesmo com a sentença de busca e apreensão dada em juízo. É que o casal que tinha a guarda provisória da menina desaparece a cada busca feita pela Justiça. "Em uma das procuras, uma moça disse que eles teriam viajado para o Sul com minha filha", diz Gislene, aflita. "Apesar de tudo, acredito que vou tê-la de volta. Mas está sendo muito difícil esperar", diz, ansiosa. Diante dos fatos ocorridos com Gislene, as lembranças ruins parecem que não vão assombrá-la. "Não procuro lembrar o que aconteceu comigo. Agora vou começar outra vida", afirma. E o futuro já está planejado. "Vou fazer Direito. Não quero que nenhuma mãe seja injustiçada como eu fui", idealiza a adolescente. O gerente do Adolescentro Valdi Craveiro Bezerra também está na torcida da garota. "Nós estamos dando o apoio psicológico para a família. Ficamos, agora, na expectativa de que os outros órgãos façam a parte deles", diz. Agora é só aguardar a filha adentrar pela porta da casa para começar um novo capítulo da história real de Gislene: a conquista do sonho, o encontro com a Vitória.


Para saber mais:

Adolescentro: O Centro de Referência, Pesquisa, Capacitação e Atenção Integral à Adolescência (Adolescentro) da Secretaria de Estado de Saúde do DF recebe, em média, 750 atendimentos por mês. O público alvo são adolescentes de Brasília e do entorno, de 10 a 18 anos, bem como as famílias.

A equipe é formada por 14 profissionais, sendo dois especialistas em adolescentes, um neuropediatra, um psiquiatra, uma assistente social, três enfermeiros, dois ginecologistas e quatro psicólogas. Várias instituições como a Vara da Infância e Juventude, Conselhos Tutelares, Promotoria e Casa Abrigo, encaminham os jovens para o local para que recebam um atendimento completo.

As atividades do Adolescentro começaram em fevereiro de 1982 na Unidade de Pediatria do Hospital de Base do DF. Em setembro de 2006, o Centro de Saúde Número Seis foi transformado em Adolescentro pela secretaria de Saúde.

Nos casos de violência sexual e uso de drogas, considerados mais graves, a pessoa é encaminhada para fazer uma entrevista e, em seguida, a consulta é marcada. Nos demais casos, como dificuldade escolar, tem de aguardar ser chamado. O atendimento é feito de acordo com as vagas.

Horários: segunda a sexta -feira/ De 7h30 às 17h30
Endereço: L2 Sul, quadra 605, Centro de Saúde 06
Telefone: 3242 1447
Site: http://www.adolescentro.blogspot.com/



EAJ: O Escritório de Assistência Jurídica (EAJ) foi criado em 2001 para atender a população de Sobradinho/DF. O objetivo era de prestar serviço de assistência jurídica nas áreas civil e penal para a comunidade e oferecer a prática para os alunos de Direito. Em 2006, o escritório foi transferido para o Plano Piloto, fazendo parte do Núcleo de Práticas Jurídicas do Iesb (NPJ).

Os estagiários do EAJ fazem atendimento de causas relacionadas à violência doméstica praticada contra mulheres, adolescentes e crianças. Acompanham os casos, conciliações, atuam no tribunal do júri, fazem o encaminhamento para tratamentos psicológicos e fisioterápicos.

Os principais objetivos do EAJ é dar uma visão crítica para os alunos da prática do Direito, para que eles entrem em contato com os problemas sociais e se integrem com a comunidade carente, estimulando, assim, o raciocínio jurídico voltado à defesa dos direitos humanos.


Atualmente, cerca de 1.300 processos correm no escritório. A equipe é formada por uma média de 250 alunos por semestre, além de sete professores orientadores e quatro advogados. O atendimento é voltado para as pessoas que não têm condições de pagar advogado.

Horário de funcionamento:
Segunda a Sábado
8h às 12h e 14h às 18h
Terça e quinta-feira
18h às 22h

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A vida que ninguém vê

A história de um olhar
por Eliane Brum

O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.


Inclui.

Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva.

Esta é a história do olhar de uma professora chamada Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.

Um olhar que nasceu na Vila Kephas. Dizem que, em grego, kephas significa pedra. Por isso um nome tão singular para uma vila de Novo Hamburgo. Kephas foi inventada mais de uma década atrás pedra sobre pedra. Em regime de mutirão. Eram operários da indústria naqueles tempos nada longínquos. Hoje, desempregados da indústria. Biscateiros, papeleiros. Excluídos.

Nesta Kephas cheia de presságios e de misérias vagava um rapaz de 29 anos com o nome de Israel. Porque em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado. Há sempre alguém para ser chutado por expressar a imagem-síntese, renegada e assustadora, do grupo. Israel, para a Vila Kephas, era esse ícone. O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.

Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel vivia atirado num canto ou noutro da vila. Filho de pai pedreiro e de mãe morta, vivendo em uma casa cheia de fome com a madrasta e uma irmã doente. Desregulado das idéias, segundo o senso comum. Nascido prematuro, mas sem dinheiro para diagnóstico. Escorraçado como um cão, torturado pelos garotos maus. Amarrado, quase violado. Israel era cuspido. Era apedrejado. Israel era a escória da escória.

Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo.Bom de bola. Bom de rua. De tanto gostar do menino que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Até a porta onde Lucas desaparecia todas as tardes, tragado sabe-se lá por qual magia. Até a porta onde as crianças recebiam cucas e leite. Israel chegou até lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de olhar.

Aconteceu neste inverno. Eliane, a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado, quase desaparecido dentro dele mesmo. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão, dando a cara para bater porque nunca foi capaz de escondê-la.

Eliane viu Israel. E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou naquele olhar é um milagre de gente. Israel descobriu um outro Israel navegando nas pupilas da professora. Terno, especial, até meio garboso. Israel descobriu nos olhos da professora que era um homem, não um escombro.

Capturado por essa irresistível imagem de si mesmo, Israel perseguiu o olho de espelho da professora. A cada dia dava um passo para dentro do olhar. E quando perceberam, Israel estava no interior da escola. E, quando viram, Israel estava na janela da sala de aula da 2ª série C. Com meio corpo para dentro do olhar da professora.

Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando para dentro. Cantando do lado de fora, desenhando com os olhos. Quando o chamavam, fugia correndo. Escondia-se atrás dos prédios. Mas devagar, como bicho acuado, que de tanto apanhar ficou ressabiado, foi pegando primeiro um lápis, depois um afago. E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo dentro do olhar da professora.

E o olhar começou a se espalhar, se expandir, e engolfou toda a sala de aula. A imagem se multiplicou por 31 pares de olhos de crianças. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta, ganhou lápis de cor. E, no dia seguinte, Israel chegou de banho tomado, barba feita, roupa limpa. Igualzinho ao Israel que havia avistado no olho da professora. Trazia até umas pupilas novas, enormes, em forma de facho. E um sorriso também recém-inventado. Entrou na sala onde a professora pintava no chão e ela começou a chorar. E as lágrimas da professora, tal qual um vagalhão, terminaram de lavar a imagem acossada, ferida, flagelada de Israel.

Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais o abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias, puxam a mão e lhe ensinam palavras novas. Refletido por esses olhos, Israel passou a refletir todos eles. E a professora, que andava deprimida e de mal com a vida, descobriu-se bela, importante, nos olhos de Israel. E as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.

Israel, não importa se alguém não gosta de você. O que importa é que você siga a vida, aconselha Jéferson, de oito anos. Israel, não faz mal que tu sejas grande e um pouco doente, tu podes fazer tudo o que tu imaginares, promete Greice, de nove. Israel, se alguém te atirar uma pedra eu vou chamar o Vandinho, porque todo mundo tem medo do Vandinho, tranqüiliza Lucas, nove. Israel, tu me botas na garupa no recreio?

E foi assim que o olhar escorreu pela escola e amoleceu as ruas de pedra.

Israel, depois que se descobriu no olhar da professora, ganhou o respeito da vila, a admiração do pai. Vai ganhar uma vaga oficial na escola. Já consegue escrever o “P” de professora. E ninguém mais lhe atira pedras. A professora, depois que se descobriu no olhar de Israel, ri sozinha e chora à toa. Parou de reclamar da vida e as aulas viraram uma cantoria. A redenção de Israel foi a revolução da professora .

Em 7 de Setembro, Israel desfilou. Pintado de verde-amarelo, aplaudido de pé pela Vila Pedra.